o pito

galinha
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Hoje sonhei com uma gaja, sim, uma gaja, uma garina, inglês falante, mesmo muito boa (tinha de ser, obrigatoriamente boa, senão para quê sonhar). Com ela tive uma conversa, o sacana do ID não deixou avançar para outras ondas, que incidiu sobre os diversos significados da palavra “pito”. Entendi que essa palavra permitia uma suave aproximação às fantásticas nuances da língua portuguesa.

Assim, iniciei uma sonhadora tradução explicando a originalidade da nossa língua que poderá ser um sucesso no intercâmbio cultural/social:

  • “I like pito’s rice.” – referente a um adorável prato da cozinha portuguesa.
  • “This pito makes a lot of noise!” – as galináceas vivas fazem um barulho chato; principalmente as galináceas chamadas de fracas.
  • “I liked to eat your pito.” – referente à vulva (uma coisa sexual!); o único motivo para existir a palavra pito.
  •  “You are a true pito.” – um elogio a uma gaja boa; um piropo clássico.

Penso que pensamentos como estes animam a massa anímica de qualquer povo. Sinto-me feliz por este rasgo de verbosidade.

que dia foi hoje na semana passada

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Foram duas noites em que o dormir tem sido complicado.
Tenho adormecido, mas o sonhar não me tem deixado dormir convenientemente.

ontem – sonhei que tinha acordado 181 vezes. fiquei na dúvida, quando a contagem ia em 182, se estava a sonhar ou se realmente apontei mentalmente todas as vezes que acordei.

hoje – sonhei que estava numa selva. a sonho tanto fui atacado directamente ao pescoço por uma enorme serpente. acordei depois de dar um salto (acho eu!) e com as mãos a agarrar o vazio em frente ao meu pescoço.

Acho isto tudo altamente marado.

lapdance 1.01

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Num abrir e fechar de olhos LapDance chegou ao destino. Claro que para quem tem dois dedos de testa, enfim, para qualquer entendedor mediamente inteligente LapDance nunca fechou os olhos; isso seria o convite ao suicídio. É um sujeito doido, até desleixado, mas não kamikaze. O que interessa para a nossa história é o facto de que viajou mais rápido do que uma lesma vítima inocente da toma de viagra.

Desligou a mota no parque reservado aos VIP. Levantou a viseira do capacete, adorava especialmente este momento mágico; enquanto posicionava o descanso admirou-se com os pneus esfarelados, sintoma de boas curvas e ardente velocidade; o crepitar do escape abriu-lhe o apetite para umas castanhas assadas na brasa. Ali de preto iluminado apenas pela luz do candeeiro público auto alimentado sentiu-se um homem capaz de enfrentar sem dificuldade qualquer problema que Nectarina tivesse ou viesse a ter.

Só depois deste inócuo narcisismo é que tirou o capacete, deixando-o a repousar no depósito de gasolina, e observou pasmado e com uma total incompreensão a Bolo-Rei. Olhava como uma vaca para o vazio deixado por um TGV que ora estava ali, ora já não. Os seus olhos presenciavam a ausência de luz onde esta deveria existir. Se estivesse com o capacete alojado na cabeça poderia usar como desculpa a massa anónima de insectos colados à viseira. A verdade é que os enormes tubos de néon que compunham em voltas e reviravoltas as letras da palavra Bolo-Rei estavam completamente às escuras – seria agradável um suave piscar, até uma faísca. O facto da Bolo-Rei ter a forma de um rectângulo de ouro não sossegava LapDance; e a agravar o quadro nem a luz piloto, amarela, que assinalava a campainha das traseiras emitia qualquer luminosidade. Estranho, muito estranho, pensou. Estaria a sonhar? Um calafrio seria algo que não desgostaria LapDance; sempre era a prova de que estava bem acordado, mas o seu fato Alpinestars entre outras funcionalidades mantinha-o a uma temperatura corporal constante.

Cautelosamente aproximou-se da porta. As botas faziam estalar a gravilha; o tubo de escape copiava o som. Sentiu que estaria melhor no sofá a curtir um filme e a comer pipocas. A sua tara por comida era lendária, e qualquer motivo servia de pretexto para provocar todas as suas papilas gustativas.

Empurrou a porta que estava ligeiramente entreaberta. Entrou, e o que sentiu de imediato foi um cheiro que lhe trouxe agradáveis recordações de orgias, o cheiro adocicado de vómito; mas por mais preparado que pudesse estar não estava para aquele cenário.

[em continuação…]

que ousadia! (excerto)

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Acordei com a mão esquerda a segurar os tomates. Nada de anormal este meu acordar; gosto de coçar, acariciar os meus tomates (poderia dizer testículos, mas essa palavra transmite uma ideia de inocência; e os meus tomates são tudo menos inocentes) – gosto de os sentir como contrafortes de um membro que mesmo em hibernação revela respeito.

Saí do sono verdadeiramente satisfeito, a abraçar de braços abertos as minhas almofadas king size Reykjavik-Eider em seda e com metade do corpo acariciado por um edredão Jon Sveinsson; não sou pessoa de gostos elitistas, mas gosto de me vestir com a cama – será um fetiche?

A noite anterior foi economicamente produtiva; até, para variar, sexualmente angustiante; e enquanto depenicava a ponta do pénis a lembrança tornou-se clara.

Seguindo a recomendação de uma cliente habitual aceitei marcar uma noite para a sua amiga necessitada de alguma “distracção”; garantiu-me, “Ela é muito linda.”

A amiga de nome Adalgisa, contrariando a minha sugestão reservou o quarto num hotel que eu desconhecia. Insisti um pouco pois gostava da familiaridade dos meus locais de nidificação, mas perante a sua exigência ou atrevimento? cedi – quem era capaz de pagar pelos meus serviços bem que podia ficar com a ideia de que gozava de algum domínio.

Pelas 21h00, utilizei o elevador, subi ao sétimo piso do hotel e bati à porta do quarto 701 imitando com o melhor empenho possível as quatro primeiras notas do primeiro movimento da 5ª de Beethoven; a batida secreta. Entrei a encarar arregalado (ainda sou susceptível a surpresas) para uma pouco comum máscara veneziana bauta feita de papel machê, de cor ocre, preta e dourada, decorada na testa com um medalhão de ouro e com plumas que ocultava o rosto da minha Adalgisa; o corpo estava vestido com uma longa capa preta que cobria a totalidade do corpo – todo o quadro era iluminado apenas pelas luzes do corredor; a única luz existente no quarto soprava de uma vela. Enquanto fechava a porta não pude deixar de pensar nas palavras “Ela é muito linda.” Seria? A dúvida foi, momentaneamente, relegada para segundo plano quando ordenou “Deite-se de costas na cama. ” “Ah!” “Como pode ver há ali uma cama.” A Adalgisa mordia!

informações: apenas um extracto da história

nevoeiro e o sonhar…

nevoeiro
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Ontem à noite (ou hoje de madrugada) deixaram-me ficar a ler no sofá e adormeci, pois. Tive um sonho com umas cores muito vivas.
Acordei verdadeiramente satisfeito. E todos os acordares deviam ser assim: com os sonhos a não serem despedaçados sem dó nem piedade pelo raiar do novo dia.

Descobri ao tentar limpar as remelas com a ponta do dedo indicador que continuava com os óculos vestidos; aí estava a explicação da ausência de desvanecimento. Com os óculos consegui sonhar sem nevoeiro.

morte do palhaço

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(…) Palhaço! Palhaço! A tua vida foi um sonho – agora sonha! Quem se habituou a sonhar, tem de sonhar sempre, de se fechar por dentro com o seu sonho, para fugir à realidade. Agora só te resta fazer do amor sonho e da morte um sonho maior e mais belo.

Morte do Palhaço, Raúl Brandão

os escolhidos: abril, 2011

Aside
  1. não sei se vou votar. mas a indecisão que me mortifica é escolher um dry martini ou um cosmopolitan para iniciar um doce relaxamento
  2. o melhor a fazer perante a estupidez é deixá-la cair na obscuridade.
  3. apesar de já ter almoçado apenas acordei agora (felizmente ainda só a 70%). vou utilizar os 30% para abraçar o sofá ao som de nada. humm
  4. o impensável aconteceu. já acordei!
  5. tenham medo. muito medo. cristo morreu e coelhos fofinhos andam à solta. porque é que o baal não aproveita e os leva para o 7º círculo?
  6. não vou dormir. mas vou para a cama mais cedo. tenho uns escritos a rever. uns livros para ler. um sonho para sonhar.
  7. em vez de ter dormido, devia ter descansado
  8. posição sentado. descalço… altura ideal para tomar banho!
  9. verde. amarelo. azul. vermelho. são as cores da saúde.
  10. entre backups não encontro a que me faz falta. zero reposição. a cópia de segurança dos últimos anos da minha vida também foi perdida
  11. quem é o culpado? será que podemos apontar a culpa outra vez ao mordomo?
  12. mas verdade seja dita os cabeçudos de fragoso são os melhores.

intro espectro

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“Intro Espectro” é uma história com desenhos e textos de Tiago Araújo disponibilizada em estilo fanzine.

É uma história poética, sombria, onírica que exige muita atenção pelo leitor: primeiro porque os textos têm de ser bem digeridos, segundo porque podemos ser facilmente distraídos pelas excelentes ilustrações e pela cuidada paginação. É um trabalho no global primoroso.

Foi uma boa surpresa. É, sem qualquer dúvida, um autor a seguir. Recomendo, a quem conseguir encontrar, a compra deste fanzine.