em tom cinzento

Standard

Se existem pessoas preocupadas com as cores que transportam coladas ao corpo eu não sou uma delas. Não vejo necessidade de perder tempo a combinar a camisola com as calças, as calças com as sapatilhas, as sapatilhas com a camiseta, a camiseta com o chapéu. Por isso, e desde que descobri que o cinzento combina com o meu branco pálido, estou a trocar as minhas roupas, quando estas atingem o prazo de validade, apenas por indumentária cinzenta.

E, ainda, estou a ir mais longe, sem sair do lugar, ao adquirir peças de roupa iguais. Objectivo? Aumentar a colecção da igualdade.

Ah, que sossego.

as minhas roupas

Standard

Se há coisa que odeie é levantar-me da cama. Não se pense que adoro a cama acima de tudo; não, nada disso ou, então, que deteste diligenciar uma parte da minha actividade para questões económicas – apenas gostava todos os dias de me erguer da cama indolentemente, desentesado das pressões diárias que se iniciam logo que afasto os lençóis, enfim sem horários; e já agora porque não sair do sono, acima de tudo, sem as cotoveladas lancinantes da mulher e dos seus sussurros cavernosos juntos ao meu sensual lóbulo:

acorda… olha as horas… LEVANTA-TE… lê menos e deita-te mais cedo… olha as horas… sempre o mesmo… raios te partam! tu, os livros e o computador!

Mas mesmo que me levantasse da cama à mandrião seria ofuscado por outro ódio; porque se há coisa que odeie para além de sair da cama em alerta laranja é trajar-me e não porque seja um praticante do nudismo ou um mero paladino de uma doutrina higiénica que postula a nudez total – essas coisas são-me totalmente indiferentes, apesar de ter consciência que O meu corpo de quase perfeito zagal, excelente altura para usar este vocábulo, num campo de nudismo seria um monumento de incontestável e total veneração para qualquer basbaque -, mas porque todos os dias antes de vestir-me tenho de separar as peças de roupa que irão adornar o meu corpo e é esta escolha diária que me mortifica: nunca consigo atingir com o meu vestuário um estado de lucidez cromática primorosa e como tal evitar as críticas viperinas da minha mulher.


rompi as nuvens das escolhas com esta solução

camisas, camisolas, calças, sapatilhas tudo igual e de preferência tudo preto… mas é a minha mais-que-tudo que compra a indumentária, porque me recuso veemente descolar-me para essas “compras”, e quase acredito que para ulterior crítica ela decide-se conscientemente sempre, e sempre por peças diferentes – tenho de lhe louvar a ousadia e a coragem… acho eu!

os passageiros do vento – a menina de bois-caïman (v. 6 – parte 1)

Standard

Em 1985 terminei a leitura de Ébano que era o último volume da saga Os Passageiros do Vento de François Bourgeon. Tinha na altura uns lindos 17 anos. Adorei Os Passageiros do Vento e a par com A Balada do Mar Salgado, Silêncio, Koolau – O Leproso, O Vagabundo dos Limbos, Os Olhos do Gato e O Cruzeiro dos Esquecidos foi o descobrir outro mundo na banda desenhada para além da Disney.

passageiros do vento

ébano

Em 1985 Ébano agradou-me 99.99%; queria um final para a história mais definido. O conjunto da obra-prima deliciou-me a 110%. A história de uma Isa depravada, nem sempre com a sorte do seu lado, nascida em boa família, mas enganada, decorre no século XVIII, é servida com requinte. Bourgeon revela uma autêntica mestria no desenho. Os desenhos são cuidadosamente detalhados: são as armas, as roupas, os navios. Tudo está tão bem documentado que por vezes fico hipnotizado pela profundidade do ambiente.

Relendo agora a história contada em Ébano com outra maturidade e vivência, tenho de concluir que aquela indefinição, que me aborreceu nos meus 17 anos de idade, ao deixar abertas inúmeras possibilidades, tornou a aventura ainda mais deliciosa e por isso acabava, pensava eu, esta saga marítima com chave de ouro.

Assim não o entendeu Bourgeon. As questões que coloquei ao saber que Bourgeon decidiu, passados que são 25 anos, reunir-se com Isa foi: o que mais há para contar? ou melhor dizendo, será que vale a pena contar algo mais? Bourgeon não correrá um sério risco em perder-se?

Ao ler o 6º álbum (parte 1) d’ Os Passageiros do Vento senti-me novamente imerso em doces sensações. O desenho está melhor do que nunca. E como é isso possível? Simples, o mestre agora com 64 anos superou-se a si mesmo de forma incrível. A história é agora a de uma Zabo, jovem de 18 anos, que em plena guerra civil atravessa o Lousiana, acompanhada por Quentin, um fotográfico, para alcançar a casa da sua bisavó. Inicialmente não pode deixar de pensar o que levou Bourgeon a abandonar as antigas personagens e, odiando estes saltos no tempo, fui levado através de uma narrativa rápida, em que nada foi deixado ao acaso, à presença de uma Isa maltratada pelos infortúnios da vida; Zabo é a bisneta da Isa de Hoel e em flashback somos enviados para o século XVIII e novamente para a vida de Isa.

O resultado final é de tal forma soberbo e nada entediante que mal posso esperar por Janeiro de 2010. Mês que vai encerrar definitivamente este fresco histórico. E baseio-me nestas palavras do autor para ter escrito isso:

La suite de La Petite Fille Bois-Caïman sortira en janvier. J’ai réalisé 142 pages qui forment un tout, et sont scindées en deux albums. En lisant la deuxième partie, on saura ce qui arrive à nos deux héroïnes, et cela mettra un point final aux Passagers. Car je ne vais pas faire vivre Isa pendant 150 ans ! Et je n’ai pas d’envies particulières concernant Zabo. Ensuite, je terminerai le cycle de Cyann, dont il me reste un album à faire. Il sera moins dense que les précédents, ce sera ma récré!

de boidoi.info