our cities

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Remember when you first visited your nearest city as a child, the terror of becoming lost? You overcame this, and still do, by a simple remedy: a city of your mind, an invisible construct that you carry everywhere, marked with monuments and landmarks, favourite places, quickest or safest ways from here to there. And thus, although we all share a city, it can only ever be an abstract concept, an unknown, vague and nebulous thing, through witch we sleepwalk, having each arrived from different directions, occasionally bumping into each other, co-inhabiting, almost coincidentally, the same geographic space with contrary intentions.

Underpass by Daniella Geary from Where Are We Going? (pag. 189)

o veneno ardente do desgosto

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Quando os outros nos levam a irritarmos-nos com eles – com a sua insolência, injustiça, falta de escrúpulos – então o que acontece é que exercem poder sobre nós, alastram, devorando-nos a alma, pois a irritação é como um veneno ardente, que destrói todos os sentimentos brando, nobres e equilibrados, e nos rouba o sono.
(…)
O que poderia significar agir correctamente perante a irritação?

Comboio Nocturno para Lisboa de Pascal Mercier (pág. 369)

vigésimo nono quadro

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– Rosabianca, afinal não tens os cabelos verdes!
– Verdes?
– Sim. Eu pensava… Pelo menos não podia pensar que não fossem verdes… E que não tivesses sido salva por mim do fogo!
– Do fogo?
– Sim. Porque te admiras? Do fogo. E nunca foste enfermeira.
– Enfermeira?
Encostados a uma grade, viam quase sem ver Florença lá em baixo.
– Porque perguntas? Não posso gostar de ti, Rosabianca! Pensei que tinhas os cabelos verdes e que te salvava do fogo… Mas nada disso sucedeu.
Rosabianca apertou-lhe o braço com força.
– Giovani! Se queres, pinto de verde os cabelos, subo para um quarto andar e deito-lhe fogo. Salvas-me?
– E fico ferido? Serás a minha enfermeira?
– Sim, se quiseres serei a tua enfermeira.
– Está bem, Rosabianca. Sobe lá para o telhado que eu vou deitar fogo à casa.

A cidade das flores, Augusto Abelaira
página 159

um desejo evanescente e patético

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… um desejo evanescente e patético – de voltar àquele ponto da minha vida em que teria podido optar por uma outra direcção completamente diferente daquela que acabou por fazer de mim aquilo que hoje sou?… Sentar-me uma vez mais no musgo quente, com o boné entre as mãos – isso só pode representar o desejo paradoxal de viajar para trás no tempo que me fez, mas levando-me simultaneamente a mim, àquele que agora sou e que foi marcado por tudo o que aconteceu.

página 146

Logo a seguir, instalou-se um silêncio como ele nunca havia sentido, um silêncio onde os anos se calavam.

página 147


Comboio Nocturno para Lisboa de Pascal Mercier
Edições Dom Quixote

eu, josephine linc. steelson, pobre negra no meio da tempestade

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Eu, Josephine Linc. Steelson, pobre negra no meio da tempestade, sei que a natureza vai falar. Vou ser minúscula, mas tenho pressa, pois há nobreza em experimentar a nossa própria insignificância, nobreza em saber que uma lufada de vento pode varrer as nossas vidas e não deixar nada atrás de nós, nem mesmo a vaga recordação de uma pobre existência.

Furacão de Laurent Gaudé

de modo que era aquilo

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De modo que era aquilo. Lama nos joelhos e sangue no ventre, surpresa atónita na expressão rígida dos mortos, cadáveres despojados, chuva e inimigos invisíveis dos quais se via apenas a fumarada dos disparos. A guerra anónima e suja. Não havia rasto de glória no soldado que gemia com a cabeça vendada e o rosto entre as mãos, nem no outro ferido que contemplava as suas próprias entranhas dilaceradas como quem formula uma censura.

O Hussardo de Arturo Pérez Reverte (pág. 63)