adormecer ao estilo piloto de testes

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Hoje utilizei todas as técnicas conhecidas pela humanidade para adormecer e dormir e outras tantas mais desenvolvidas por mim.

Engoli um comprimido. Apaguei a luz e afaguei a cabeça na almofada de padrão florido – ainda primavera. Fechei os olhos. Iniciei a preparação para o relaxamento. Pensei… pensei que estava debaixo de uma palmeira embutida na areia que traçava na areia uma elegante sombra sobre uma cadeira de praia na qual moi estava refastelado a ler um livro enquanto era embalado pelo som e cheiro da brisa marinha. Já sentia o cérebro a abrir as portas para Morfeu. Ah! a doce sensação de desprendimento invadia o quarto… bem-vinda!

Tudo corria bem. O vento desfraldava as velas com constância. A viagem antevia-se prometedora até pensar o quanto seria divertido se de repente a água do mar congelasse (não impliquem com a impossibilidade científica; estava a preparar um sonho, ou, melhor dizendo, o preâmbulo de um sonho) e todas as pessoas seriam fatiadas pelo gelo: as que estavam a banho, a surfar, a arrancar mexilhões; enfim todas as pessoas envolvidas com o mar de qualquer forma. Sangue, entranhas por todo e qualquer lado, crianças a chorar – desespero total. Resultado, acordei sem estar a dormir. O que se passou com o comprimido para não actuar dentro do tempo regulamentar: dez segundos, o limite para castrar pensamentos parasitas.

Acendi a luz e olhei para dentro do copo para confirmar se continha água. Estava vazio. Confirmei que tinha bebido a água, mas fiquei na dúvida se a acompanhei com o comprimido. Deveria arriscar tomar outro? Assumindo que o meu organismo já tinha absorvido um. Decidi-me pelo não. Não porque tinha receio do que me poderia acontecer com a toma de dois comprimidos, mas sim porque não me apetecia ir à cozinha encher o copo com água. E se afinal o problema não estava na medicação, mas na minha cabeça. O que se passa comigo? foi a segunda questão que coloquei. Sou realmente um máximo a colocar questões.

Duas questões. Zero respostas. Ganhou o inquisidor. Insónia foi a ordem do dia. Encerrada a sessão.

no serás nadie de alberto gonzález ortiz

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Se em El Amargo Despertar Alberto González Ortiz temos um livro mais fácil de ler, apesar de nos apresentar um mundo apocalíptico, com No Serás Nadie o autor vai muito mais longe. Deixamos de ter uma leitura, digamos despreocupada, e passamos a ter um livro cebola – cheio de camadas e mais camadas. E quando pensamos que na última camada tudo fica resolvido – não – ainda levamos na cabeça com uma caixa de pandora.

No Serás Nadie faz-nos pensar… verdadeiramente. Aqui el amargo despertar é realmente amargo. Acabaram-se os passeios na praia.

lol, camouflage 7.0 – bus 88

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This story will be published in Le Scat Noir #217.

I began to write a story about lol but the story forced me to be more than what I wanted.
Sources of inspiration:
– Le Scat Noir #215 by Black Scat Books
– Waiting for Beckett by Jason E. Rolfe
– Waiting for Godot by Samuel Beckett

lol, camouflage 6.0 – orange juice

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lol is sitting in a chair while nibbling, indecisively, between a croissant and a pains au raisins. From the balcony of one of the rooms on the third floor of the hotel Plage des Pins he enjoys a beautiful view of the blue sea and concludes that the smell of the Mediterranean Sea in Argelés-sur-Mer has a distinct fragrance. He finishes a delicious orange juice and decides to throw some balls – A game of pétanque is taking place on the beach.
‘Bonjour! Il y a une place pour une personne? J’ai mes propre boules.’
‘Bien sûr. Nous sommes jusqu’à fini ce match.’

lol smooths his mustache, fixes the béret and waits – satisfaction.

[… an excerpt …]

o pequeno deus cego

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Já li muitas críticas sobre a obra “O Pequeno Deus Cego”, história de David Soares, desenhos de Pedro Serpa, umas más, outras menos más, outras sem sentido, umas boas, outras muito boas, mas grande parte das críticas negativas têm uma coisa em comum: o leitor sentiu-se chocado. Fico feliz por isso.

Se o livro que lemos não nos acorda com um murro no crânio, para quê lê-lo? Para que nos faça felizes, como escreves? Por Deus. Sê-lo-íamos da mesma maneira se não tivéssemos livro nenhum, e, se fosse necessário, poderíamos escrever os livros de que precisamos para sermos felizes. Muito pelo contrário, necessitamos de livros que sobre nós exerçam uma acção idêntica à de uma desgraça que muito nos tenha afligido, tal como a morte de alguém que amássemos mais do que nós mesmos, como se fôssemos proscritos, condenados a viver nas florestas, afastados de todos os nossos semelhantes, como num suicídio – um livro deve ser o machado que quebre o mar congelado em nós. É assim que eu penso.

Frank Kafka, Carta a Pollak, 27 de Janeiro de 1904

Gosto de ler livros que me fazem passear na praia, sentir a areia a fugir por entre os dedos, mas adoro acima de tudo livros que me fazem reflectir, pensar, questionar.

David Soares consegue em cada história esse objectivo e neste “O Pequeno Deus Cego” ainda tenho os excelentes desenhos de Pedro Serpa. “O Pequeno Deus Cego” é um refrescante dry martini, temperado aqui e ali com uma azeitona verde, com a descoberta de novos sabores a cada sorvedela – fantástico.

“O Pequeno Deus Cego” pode ser lido sentado, deitado, de bruços; não obstante, qualquer que seja a posição, permite várias leituras e revela que David Soares explora a natureza humana com uma mestria acutilante. Ninguém fica indiferente a “O Pequeno Deus Cego” pelo argumento e pelo trabalho visual de Pedro Serpa (desenhador a seguir com muita atenção).

pensamentos de sanita versão 1.0.a

língua
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# Será que um picheleiro pode ofender uma mulher dizendo “és uma porca solta!
# Será que um carpinteiro pode ofender uma mulher dizendo “és uma lasca no dedo!
# Será que um serralheiro pode ofender uma mulher dizendo “és uma limalha no olho!

# E o mesmo informático que pode morrer afogado na praia gritando F1, F1 como pedido de ajuda, pode dar-se ao luxo de solicitar favores sexuais com a frase “gostava que acedesses ao meu disco duro.”

sem peixe, mas com carne

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E sem muito esforço lá fui à pesca a convite do meu Tio João.
A ocasião era o 4º Concurso do Grupo de Pesca Desportiva “A Barcaça”. Local: Praia dos Sacos (Apúlia).

[na primeira foto estou a treinar a pose para quando tirasse do mar um peixe de 6 quilos; para os distraídos o peixe não foi fotografado porque era tímido]

Não pescava desde os meus 13/14 anos de idade e como tal já sabia que nem ia devidamente equipado, mas tinha uma mochila de 107 quilos de boa vontade cheia. Com cana de pesca emprestada fiz-me ao mar. As ondas fizeram-se a mim; fui muitas vezes o sacrifício de ondas que decidiram, sem eu saber porquê, no exacto momento em que lançava, molhar as minhas velhas sapatilhas Le Coq Sportif, que devem ter mais de 25 anos.

Aqui está o meu Tio João. Responsável por me levantar cedo da cama (isso não se faz). Reparem no olhar de guerra com que enfrenta o mar – assustador. Tão assustador que os peixes por vezes lhe fogem.

observem o olhar arguto. olhar de um verdadeiro pescador.

O momento mais alto foi levar com a chumbada na testa porque me esqueci de largar a linha e fui vítima do efeito boomerang. Não pesquei nada; diverti-me como o caraças e relaxei duplamente.

pai serra: devidamente equipado. um profissional.

Aqui o amigo Pai Serra pescou o primeiro peixe do dia, mesmo ao meu lado. A isca dele convenceu melhor o peixe.

a minha isca e o peixe dele

A pesca corria bem. Bom tempo. Bons lançamentos. Boas fotos. E outro peixe.

o amigo joão machado e o seu peixe. um sargo.

Estava eu cheio de estilo a contemplar o mar e à espera que algum peixe quisesse dar valor ao dogma “sorte de principiante” quando o cheiro de carnes grelhadas me assaltam as narinas. O que se passaria nas dunas?

eu e o mar e a cana de pesca

O que se passava? O amigo Costa tinha acabado de instalar a sua tasca de comes e muitos bebes. Expliquei que não fazia sentido pescadores estarem ali a comer carne, que seria o mesmo que um grupo de caçadores no meio do monte a grelharem sardinhas. Ninguém me ouviu (ou ligou) – talvez o barulho das ondas.

a tasca do costa.

O peixe que não pesquei no mar comi (um excelente bacalhau) no almoço convívio servido no aconchegante Café Dinis.

eu e o costa, o responsável pela tasca da praia

Foi um dia verdadeiramente espectacular. A repetir o mais cedo possível.