lembro-me de si

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Era mais do que eu podia esperar e foi um puro prazer, um regresso ao passado sem um átomo de desapontamento – o passado recapturado, como um refúgio, tudo o que sempre quisera que fosse uma chegada a casa, mas uma chegada destas a casa (pelo menos no meu caso) nunca acontecera. Era um caminho de regresso maravilhoso, como se aquele homem dos seus cinquenta anos, que da outra vez era um adolescente, estivesses à espera que eu regressasse.

Paul Theroux, Comboio-Fantasma para o Oriente (pág. 290)

obscurum nocturnus por diogo carvalho

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Já (re)li esta aventura diversas vezes e na última leitura descobri um pormenor que até então tinha-me passado despercebido. Tiago está a ler, no carro conduzido por David Gois, o Fanalbum “Cabo Connection” de, naturalmente, Diogo Carvalho.

cabo connection

cabo connection

Quanto ao livro…
É implacavelmente agradável.
Sem a necessidade de criar um barulhento e grandioso cenário apocalíptico, mas antes com uma atmosfera calma e subtil Diogo Carvalho tem a chave perfeita para uma história imprevisível, emocionante. Não sendo apenas um livro de horror, é romântico (até), cheio de acção, aventura e com uma sensação de road trip, a verdade é que nos transporta delicadamente ao medo.

Mesmo para quem não gosta de horror aconselho uma boa espreitadela. É fantástico. Para quem adora horror é a cereja no topo do bolo.

É um livro que qualquer zombie que se preze gostaria de ler.

haja ânimo

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Todos os dias eles subiam a mesma escada; encontravam, logo no topo, assim de rajada, enclausurado na vitrina de sempre, o mesmo cartaz com os dizeres “Haja Ânimo”.

Todos os dias, que eram tudo menos santos dias, contavam mentalmente, com o coração cheio de desânimo, os degraus: e um, e dois, e três, e agora quatro, e cinco, e já está quase, e seis, e sete, e oito, e noveeeeee e raios partam tudo… ufa… dez. E logo no patamar o cartaz que já foi de um amarelo vivo, agora descolorado pela passagem dos anos, sorria desdenhosamente para eles a publicitar um já muito ultrapassado “curso prático contra o desânimo, o ruído, o medo e a solidão”. Sentiam, quando o deixavam para trás, o sorriso espetado nas costas – a gozar com eles.

Eles que já foram crianças cheias de sonhos, adolescentes com hormonas saltitantes, adultos com esperanças, velhos com saudades. Eles que passaram por todas as pungentes quatro fases de um ciclo de vida, mas ao contrário da borboleta a última fase não é de um lindo renascimento, vêm-se agora numa nova, assustadora e inesperada quinta fase: a fase zombie.

Eles de olhos mortiços, corpos amortalhados, de andar morrediço são os novos zombies; são a corporalização do desalento, do dilaceramento individual; são autómatos de carne e sangue que obedecem sem reflexão a vontades incoerentes. Eles sabem-se bobis que recebem diariamente um osso descarnado em troca do nada.

O que lhes resta? Certamente a revolta, porque a vida nunca são dois dias.

a transformação

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Hoje pela madrugada dentro estava com os pés completamente gelados e o resto do corpo a tremer que nem decrépitas bandeiras de Portugal penduradas nas varandas ao sabor do vento. Quando o frio começou a subir pelas canelas e a alastrar pelos membros inferiores temi pela saúde do meu pénis e dos meus exuberantes testículos.
Estaria a transformar-me em vampiro? Claro que no clássico vampiro que pede licença para entrar em casa e não aquele que come vegetais ou anda à luz do dia. Um dos motivos que me leva a adorar os vampiros é esta refinada educação. O vosso deus, por exemplo, está em todo o lado e nem pediu permissão para estar neste preciso momento a ler o que estou a escrever por cima dos meus ombros.
Esta ideia romântica de transformação foi afastada pela resposta da minha mais-que-tudo, após ter bocejado um arrepiado “Estou cheio de frio e a tremer. O que se passa?”. “Olha que eu estou cheia de calor.” foram as suas palavras jocosamente apunhaladas nos meus ouvidos.

Assustei-me.

Estaria a minha energia vital a ser sugada? Passados estes anos todos seria a minha companheira de cama uma real Sil? Uma parasita cibernética do planeta “estou-realmente-lixado-da-cabeça“?
“Agora é que não me safo”, sussurrei para a minha almofada.
Senti uma mão a penetrar-me nas costas, a subir até ao pescoço e a dizer “Estás cheio de febre.” A mão e corpo saiu da cama e foi para a cozinha preparar qualquer poção diabólica ao melhor estilo de chá de Santo Daime. Soube isto quando me foi oferecido um copo de líquido branco e efervescente com um irritado “toma isto e vê se me deixas dormir”. Bebi calado e bem caladinho. Não me lembro de adormecer.

Acordei. A fêmea alfa já não estava na cama. Teria sido tudo um pesadelo?

venda de sangue

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Qual a minha surpresa, mas não total, era mais que previsto, ao ver em Barcelos a primeira loja franchisada de compra de sangue e de órgãos.
Como estava a ser sangrado pelo Estado mais que “social“, pelos bancos e outros parasitas, sem a aplicação de um qualquer hirudo medicinalis ao melhor estilo medieval, até que perdi qualquer vontade de viver, vender um pulmão e um rim para liquidar a totalidade dos meus débitos foi uma decisão fácil de tomar.

Vi-me passados 30 dias com uma conta do hospital impossível de suportar. Hoje venderei o meu coração para ser cremado e atirado aos quatro ventos.

à noite

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Encostado ao bar.
– Que gin têm? – perguntei.
– Apenas Bombay?
– Tens pepino?
– Não. Nem limão.
– Que pena! – retorqui pesarosamente exibindo em destaque o meu dedo mínimo direito.
– …
– Pode ser, então, um modesto gin tónico.

Sentado, numa zona ar livre, depois de descobrir a quantidade máxima de fumo que passivamente consigo fumar.
Aí fiquei a admirar a carne de vaca embalada com o mínimo de decoração; redução de custos? Ao ver as embalagens tão reveladores, algumas de forma assustadoramente com o prazo de validade mais que ultrapassado, este vosso caçador noctívago constatou que a carne não se torna tão apetitosa. A ausência da surpresa, a impossibilidade de desflorar o pacote, inibi-me o palato. Eu gosto de conquistar a caça, odeio quando me é, assim como que oferecida, ao desbarato.
Por este andar é menos custoso e muito mais seguro comprar a carne de vaca no mercado dos Feitos.

De pernas afastadas a segurar Nele.
Adorei o urinol em aço inox AISI 316 polido de alto brilho, de 2m30cm, no qual verti um longo e jactante jacto de urina. Ver reflectido, não obstante por apenas dois minutos, no espelho em inox o meu pénis foi gratificante. Raramente tenho a oportunidade de o Ver, mesmo que em imagem invertida, pois está constantemente a fazer perfurações em túneis sobreaquecidos e húmidos. Sei que tenho um ocupação de risco. Ser caçador it’s hard work, but someone has to do it. Termino acrescentando que hard work never killed anyone, exceptuando, no meu caso, alguns milhões de milhões de espermatozóides.

a forca

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Como defenderá alguém uma cidade rodeada por inimigos e infestada de traidores, quando os seus aliados não merecem confiança e o seu antecessor desapareceu sem deixar rasto? Bastará para fazer um torturador sentir vontade de fugir (mesmo que conseguisse caminhar sem bengala) e o inquisidor Glokta precisará de encontrar as respostas antes que o exército gurkês lhe bata aos portões. Os nortenhos passaram a fronteira de Angland e espalham fogo e morte pelo território gelado. O príncipe Ladisla pretende rechaçá-los e cobrir-se de glória eterna. Há apenas um problema: ele comanda o exército com o pior armamento, a pior preparação e a pior liderança em todo o mundo. E Bayaz, Primeiro dos Magos, lidera um grupo de aventureiros arrojados numa missão pelas ruínas do passado. A mulher mais odiada do Sul, o homem mais temido do Norte e o rapaz mais egoísta da União poderão ser estranhos companheiros de viagem, mas, se conseguissem deixar de se odiar, seriam também companheiros potencialmente letais. Segredos ancestrais serão expostos. Batalhas sangrentas serão ganhas e perdidas. Inimigos declarados serão perdoados… mas não antes da forca.

A Forca, segundo volume da trilogia “A Primeira Lei”, de Joe Abercrombie é uma leitura sólida. Não há surpresas, e como tal é lida sem sobressaltos. Se o uso de capítulos intercalados, que nos obrigam a perceber as aventuras de várias personagens ao mesmo tempo, para forçar a leitura, é um método poderosamente condicionante, e que na “Lâmina” foi uma mais valia, o ponto alto da narrativa aconteceu, mesmo, quando personagens aparentemente sem nada em comum se encontram, n’A Forca, isto, aborreceu-me um pouco.

Tirando as cenas de cariz sexual, fracas e quanto a mim descontextualizadas, o resto do livro vale por ser mais do mesmo: violência, magia, mais violência, linguagem sem papas-na-língua e violência, e traição.

dia dos namorados vs dia dos casados

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Hoje é o Dia dos Namorados ou Dia de São Valentim. É uma data especial e comemorativa na qual se celebra a união amorosa entre casais sendo comum a troca de cartões e presentes com simbolismo de mesmo intuito, tais como as tradicionais caixas de bombons. No Brasil, a data é comemorada no dia 12 de Junho. Em Portugal também acontecia o mesmo até há poucos anos, mas actualmente é mais comum a data ser celebrada em 14 de Fevereiro.
via wikipedia

Um gajo casado não é namorado.
Já passou pela fase do ovo (aka namorado), pela fase da larva (aka noivado); encontra-se actualmente na fase pupa (aka casado) e anseia perpetuadamente chegar à etapa imago (aka fase adulta).

É complicado explicar a uma qualquer mulher… casada! o natural esquecimento de uma prenda.

Tentei hoje uma breve explicação e sinto no âmago mais meu que o resultado não foi o mais positivo. Tive em último recurso de recordar à minha mulher (aka amante) que no sábado passado desfizeram-me uma barba de dois meses – ah! ah!, não pode existir melhor prenda, mesmo com efeitos retroactivos? Certo?

E tenho tudo a meu favor (acho eu com quase toda a certeza):

  1. elogio sempre a comida que ela faz
  2. e quando é preciso eu cozinho. encomendo uma pizza familiar e resolvo a questão qualquer que ela seja
  3. levanto a tampa da sanita
  4. e baixo a tampa da sanita

Além do mais sendo eu gajo casado 364 dias por ano como seria possível, academicamente filosofando, me transformar em namorado logo pelas 00h00?
Existe algum botão escondido? Uma palavra chave?

luluzinha teen e sua turma

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Já tinha falado que a Turma da Mônica ultrapassou a infância e entrado numa fase pós-adolescência.

O mesmo aconteceu com a personagem Luluzinha. A revista “Luluzinha Teen e sua Turma” (o roqueiro Bolinha, a fashion Glorinha, o surfista Alvinho e a gamer Aninha) estão de volta em estilo manga.

lulu

lulu e bolinha

Apenas tenho o número um por uma questão de “arquivo” – pois diz o viciado.