david soares, uma entrevista

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É com imenso prazer que publico a entrevista realizada a David Soares, no dia seguinte a ter sido premiado na edição deste ano do Amadora BD, com o Prémio Nacional de Banda Desenhada para Melhor Argumento de Autor Português pelo livro «O Pequeno Deus Cego» (uma edição Kingpin Books, desenhado por Pedro Serpa).

O que adoro em todo o seu trabalho, além de uma fantástica imaginação, é a sua capacidade em não nos deixar indiferentes. David Soares é uma referência incontestável na literatura em Portugal – um criador completo. É um autor a descobrir ou a reencontrar.

Não nego a minha grande admiração por David Soares. Possuo todos os seus trabalhos. “Batalha” tenho-a em todas as cores, só me falta comprar a edição da “raposa” e obter “A Conspiração dos Antepassados” com a capa “pessoa”, até tenho impresso em booklet “Um Passeio por Lisboa Triunfante“, e foi, por isso, precisa muita coragem, misturada qb com atrevimento, para lhe colocar algumas perguntas que ele amavelmente acedeu responder.

Agradeço, mais uma vez a David Soares e, pois claro, a todas as editoras que o têm trazido a público.

A entrevista.

1. “(…) É preciso coragem para escrever, e a coragem cresce mais pelo nosso próprio exemplo que pelo exemplo dos outros. É preciso coragem porque escrever é confessar (…)” palavras extraídas do livro “Renascimento” de Brian W. Aldiss. Achas, sinceramente, que um escritor se confessa, não no sentido religioso do termo, ao escrever?

capa_romance

conspiração dos antepassados

Acho que, de uma forma ou de outra, tudo aquilo que se escreve terá alguma relação com a experiência de vida do autor, embora essa relação possa ter maiores ou menores graus de aproximação à realidade. No limite, quando se fala em auto-biografia, essa relação será a maior possível, em outras abordagens já não será tão directa ou não será tão directa em todos os momentos ou de maneira tão flagrante. Pessoalmente, não gosto de ler romances directamente auto-biográficos e de escrever histórias auto-biográficas, porque a minha voz autoral, o meu universo autoral, preocupa-se com temas, imagens e ideias que vão totalmente ao encontro daquilo que é exterior à dita realidade, daquilo que é exterior ao convencional. Logo, a minha obra pouco ou nada tem de auto-biográfico, daí achar difícil que se analise nela algo assemelhado a uma confissão. Há algo de confessional, claro, chamemos-lhe isso, mas na composição do meu próprio universo autoral, ao qual a minha obra se dirige. Com efeito, seria muito estranho se o meu universo autoral não tivesse nada a ver comigo, não é? Mas a minha obra, em regra, não se dirige ao auto-biográfico, não se dirige directamente à minha experiência de vida de todos os dias. Dirige-se, sim, à minha vida imaginal, à minha sombra. A obra que escrevi que, até agora, contém maior profusão de elementos auto-biográficos ainda nem sequer está pronta: é a banda desenhada «Palmas Para o Esquilo», que está a ser desenhada pelo Pedro Serpa, o desenhador de «O Pequeno Deus Cego», e que será editada para o ano. Mas mesmo essa história, na qual existem muitíssimos episódios e elementos auto-biográficos, retirados directamente e sem pudor algum da minha infância, não é de modo nenhum uma história auto-biográfica. Todavia, concordo em absoluto que é preciso coragem para escrever, assim como é preciso coragem para desenhar, para compor, para filmar. Ser artista é muito trabalhoso, muito exigente. Cada vez é mais difícil.

2. Quando vejo um David Soares a dominar com mestria o romance fantástico, em que edita de rajada 4 romances em 5 anos, penso naturalmente que estará, certamente, a preparar outro romance. A verdade é que tal não acontece e deparo com trabalhos em banda desenhada, um ensaio e o teu último em spoken word. São experiências autorais que precisas explorar? São temas que foram imaginados especificamente para cada suporte? Ou servem para descansar, no sentido de não serem, em princípio tão exigentes como um romance?

o-evangelho_do_enforcado

o evangelho do enforcado

Tens razão, não estou a preparar outro romance: estou a preparar dois romances.
Um encontra-se todo estruturado e até iniciado, mas tive de interrompê-lo, porque o seu tom – o tom da obra – não estava a ir ao encontro do novo ciclo autoral que inaugurei com «Batalha». O que é que isto significa? Significa que, a partir de «Batalha», encontro-me num novo ponto de observação sobre o meu universo autoral: ou seja, sou um autor, tenho um universo autoral próprio, que é composto por determinadas imagens, ideias e referências, e, cingindo-me aos romances, com «A Conspiração dos Antepassados», «Lisboa Triunfante» e «O Evangelho do Enforcado» observei esse mundo autoral, interroguei esse mundo, sob um ponto de vista em particular, mas ao escrever «Batalha» mudei de ponto de observação, embora as imagens, as ideias, os temas e as referências que compõem o meu mundo autoral se mantenham as mesmas.

Sempre criei em ciclos, sempre alterei as minhas coordenadas de observação a partir de uma determinada obra e mantenho o novo ponto de observação até sentir a necessidade de encontrar outro. Nos romances isso aconteceu com «Batalha». Penso que «A Conspiração dos Antepassados», «Lisboa Triunfante» e «O Evangelho do Enforcado», embora sejam romances com intenções diferentes, com personalidades muito distintas, partilham o mesmo ponto de observação sobre o meu mundo, que é um ponto de observação diferente do de «Batalha»; mesmo sabendo que o mundo autoral de «Batalha» continue a ser o mesmo: até consiste no mesmo mundo ficcional – o mundo de «Batalha» é o mundo de «Lisboa Triunfante» e de «O Evangelho do Enforcado». As minhas bandas desenhadas mais recentes também têm um ponto de observação completamente diferente das mais antigas, embora o meu universo autoral continue a ser o mesmo. De maneira que tive de interromper o trabalho no romance todo estruturado e iniciado de que falei no início desta resposta, porque o tom da narração dele estava muito relacionado com o ponto de observação que abandonei com a escrita de «Batalha», logo tenho de encontrar um modo de integrar esse romance interrompido no tom que me interessa explorar neste preciso momento. No tom que, evidentemente, estou a explorar com um novo romance – diferente – que estou a estruturar e a corporizar. Já tenho escritos vários blocos de texto e muitas ideias apontadas e estou, pois, a construir uma estrutura e uma linha narrativa que me estão a dar um prazer enorme. É um romance que conto publicar no próximo ano.

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os anormais: necropsia de um cosmos olisiponense

No que diz respeito à banda desenhada, à não-ficção e ao ‘spoken word’, são linguagens diferentes da do romance, mas não consistem em linguagens de repouso ou de experimentação. Quando concebo uma ideia para uma nova obra ela já vem com um carácter único que pede uma linguagem específica: ou pede para ser um romance, uma banda desenhada ou um ‘spoken word’. Não forço as ideias a serem obras que elas não querem ser e não as programo no sentido de fazer uma bd a seguir a um romance ou um romance a seguir a uma bd. Se tiver apenas ideias para bd durante um certo período, então só escrevo bd. Se tiver apenas ideias para romances durante um certo período, então só escrevo romances. Não programo estas coisas, as ideias é que surgem e pedem para ser o que são: elas já nascem bandas desenhadas, romances ou ‘spoken word’. É como ser-se menino ou menina. E a banda desenhada é uma linguagem muito exigente, porque escrevo as minhas bandas desenhadas prancha por prancha, vinheta por vinheta, descrevendo todos os planos e sequências, mais os textos: tenho de descrever por palavras, num argumento o mais completo e rigoroso possível, tudo aquilo que imaginei na minha cabeça de modo a ser compreensível para o desenhador. É por isso que também desenho ‘layouts’ dos meus argumentos para os desenhadores compreenderem com mais facilidade o universo autoral que imaginei. Quanto ao ‘spoken word’, o meu novo disco «Os Anormais: Necropsia De Um Cosmos Olisiponense» é dos textos mais complexos e desafiantes que já escrevi nos últimos tempos: e não possui nenhum apoio em papel, foi feito para ser ouvido. É tão exigente quanto um romance – talvez mais, porque não tem a familiaridade do papel, é um trabalho que aborda sem tréguas o ouvinte com um texto multi-referencial e ultra-polissemântico.

3. Tens consciência que a tua escrita não é certamente muito acessível para um mercado de leitores mais habituado a, digamos, livros mais fáceis de digerir? Não te assusta saber que o mais certo é existir cada vez menos leitores capazes de te querer ler porque estamos numa época que tolera e recompensa o que é mau? Ou é isto uma falsa questão? Ou a ser um problema não te assusta porque sentes que o que importa afinal são as palavras por mais excêntricas que possam ser e que a exigência e a inteligência acabarão por vencer?

opequenodeuscegoOlha, acho que nem sempre a exigência e a inteligência acabam por vencer, para ser sincero. Muitas vezes, se calhar a maioria das vezes, ocorre até o oposto. De facto, a minha abordagem ao ofício da escrita faz-se pela porta grande da polissemântica, da polissemia, da polinização total entre palavras, entre neologismos e arcaísmos. Ao fim e ao cabo, o que é um arcaísmo? Para mim não existem palavras mortas, porque sou um escritor: eu amo as palavras, verdadeiramente. Não quero que elas morram, não sou nenhum coveiro das palavras. Se se é escritor para se ser coveiro, então não vale a pena.

Quando escrevo no Twitter estou a comunicar, por exemplo, mas será que se pode escrever um romance do mesmo modo que se escreve no Twitter? Quer dizer, pode-se e até acho que isso já foi feito, infelizmente, mas será literatura? Claro que não, mas, independentemente disso, anda por aí uma moda muito estúpida relacionada com micro-ficções e com micro-micro-ficções. Isso para mim é a antítese total do que a literatura deve ser. O Alexander Theroux diz que se formos a casa de alguém e virmos que não existe um exemplar do «Dom Quixote» estamos em maus-lençóis e devemos fugir o mais depressa possível e, embora ele esteja a ironizar, tem toda a razão, porque onde não um «Dom Quixote» há certamente um livro escrito por uma celebridade ou por um tarefeiro dos géneros que estejam na moda na altura ou uma micro-ficção ou, pior, poderá nem sequer haver livros.

Quem é que hoje em dia lê o «Dom Quixote»? Ou o «Gargantua» do Rabelais? O «Ada» do Nabokov? Ou o Laurence Sterne, o Dante, o Joyce, o Barão Corvo? O que mata a arte é achar-se que ela tem de ser um mimetismo do real – e o que mata a literatura é achar que um livro tem de ser uma coisa muito perceptível, muito escorreita, muito entretível. “Lê-se como um romance”, diz-se quando se quer sublinhar a faculdade que uma obra tem de ser de dócil assimilação, como se o romance fosse o epítome da docilidade, da mansidão. Até já vi à venda um livro que tinha uma cinta promocional com a frase «um livro muito fácil de ler» – isto é rigorosamente verdadeiro, o que é espantoso. Enfim, como é que se luta contra isto?

É claro que nem toda a gente tem capacidade para ler títulos como «Don Renato: An Ideal Content», escrito pelo Barão Corvo em 1909, que mistura inglês, italiano, latim e grego na mesma frase – às vezes na mesma palavra! – e apresenta um dos vocabulários mais intrincados e luxuriantes que tive oportunidade de encontrar num livro. Nem toda a gente tem capacidade para ler o «Ulysses», quanto mais o «Finnegans Wake», muito menos o ultra-erudito «Darconville’s Cat», mas isso, ao fim e ao cabo, é um problema dos leitores, não é um problema dos escritores. Eu escrevo aquilo que tenho vontade e necessidade de escrever: se me percebem, óptimo. Se não percebem… Que posso eu fazer? Não se pode ser compreendido por toda a gente ao mesmo tempo, não é verdade? Não posso é, entre aspas, descer a minha fasquia para ir ao encontro da média, digamos assim. Isso é impossível. Nesse sentido, fico feliz por saber que também tenho cada vez mais leitores, mesmo com toda a excentricidade e erudição do meu vocabulário e da multiplicidade de camadas dos meus livros. É sinal que ainda há muita gente que sabe ler e que procura livros que lhes estimulem o intelecto, livros que lhes venham a pertencer. Isto é muito importante, a pertença. A construção da biblioteca interior.

batalhaNo século XVIII e ainda no século XIX os leitores andavam com um livro em branco no qual copiavam trechos mais significativos das leituras que iam fazendo e quem não tinha um caderno desses era considerado um bárbaro. Era uma espécie de construção do homem através do livro, da leitura. O homem era o somatório do que lia. Hoje ninguém se constrói a partir dos livros: constroem-se a partir dos maus filmes de entretenimento, dos jogos de vídeo, da má música popular, dos desportos de massas. Cultiva-se a aparência, mais do que o corpo saudável: o que interessa é parecer bem, não é estar bem, e, nessa óptica, devota-se mais tempo ao ginásio do que à biblioteca. Vivemos numa espécie de período neo-romano, em que o que interessa é o carácter utilitário e prático das coisas. Se algo não tem um propósito prático, imediato, então não serve, não presta. E sob essa égide rasura-se o ensino da filosofia dos currículos escolares, por exemplo. Falta compreender aquilo que os gregos sabiam e que os romanos desaprenderam: que até as coisas práticas têm de ser belas, têm de ter poesia. Se assim não for, é um vazio muito grande. É, de facto, a era do vazio, mas não do vazio construtivo, aquele vazio ocioso que nos permite ouvir, ver e ler com atenção e com propriedade memorativa. É, antes, o triunfo do vazio sorvedouro, do vazio aniquilador ao toque.

4. Concluo, pelo que vou lendo, que é muito importante para ti uma apurada investigação sobre o que te propões narrar. Não te aborrece saber que isso te impede de escreveres mais livros?

A investigação não me impede de escrever, de forma alguma. Pelo contrário, o ofício da escrita faz-se escrevendo e lendo. Quem não lê, não poderá escrever, mas é ler a sério, ler muitíssimo. Ler e pensar sobre o que se leu. Memorizar, reflectir. Isto é importantíssimo, andar a pé com a cabeça cheia de livros. Ao fim e ao cabo é a construção da biblioteca interior, como disse na resposta anterior. A coisa mais triste do mundo é um escritor inculto. O James Joyce dizia que tinha a mente de um ajudante de merceeiro. Deve ter sido numa altura em que os ajudantes de merceeiro seriam os fulanos mais geniais do mundo, de certeza. Estas falsas modéstias, enfim, fazem mais mal que bem, sinceramente, mas é imperdoável que o ajudante de merceeiro não saiba pesar os artigos e fazer contas (de merceeiro), não é? Porque é o trabalho dele, evidentemente. Se não sabe fazer contas e pesar os artigos está a ser um mau ajudante de merceeiro. Ora, o ofício do escritor é lidar com as palavras, com o conhecimento. Se não se domina estas áreas, se não se é bom com palavras e com o conhecimento, então também se está a ser um mau escritor. E quando é assim, não vale a pena insistir. Não vale a pena insistir, porque a arte sai de dentro para fora, logo não pode ser forçada. E não vale a pena insistir, também, porque a concorrência é numerosa e ferocíssima. A arte não se compadece com indivíduos de fraca vontade: ou se é artista ou não se é – e quando se é, é-se em todos os momentos, todos os dias, por mais difícil e angustiante que isso possa ser. O artista não é um indivíduo normal. Eu não sou um indivíduo normal. A normalidade usa fatos de treino para ir às compras ao supermercado, lê jornais desportivos e vê “reality shows”. A normalidade não me interessa.

lisboa-triunfante-capa-raposa5. Sentes que a tua literatura não é descartável e que envelhece bem?

Claro. Tenho o cuidado e o engenho de escrever livros que dificilmente se deixarão datar.

6. Não te assusta o rótulo de seres considerado o melhor autor português de literatura fantástica? E achas que o és não apenas porque escreves livros inteligentes, mas, acima de tudo, porque não tratas o leitor como um imbecil?

A minha obra insere-se no género fantástico, porque o meu universo autoral, próprio, distinto, pessoal, se preocupa com ideias, temas e imagens que vão ao encontro do inrotineiro, do sobrenatural, do esotérico, mas a minha obra não assenta e nunca assentou em lugares-comuns ou referências associadas a este ou àquele género literário, por isso, sim, pode considerar-se literatura fantástica, se se quiser, e com muito gosto da minha parte, mas por via do meu universo pessoal, não por via do mimetismo referencial – chavânico – que está na base do preconceito crítico contra a literatura de género.

De facto, a maioria desses livros é péssima e tem como único objectivo vender-se, não tem como objectivo ser literatura. Mas o mesmo pode dizer-se da maioria da literatura contemporânea, que também é uma maioria má que se farta, daí que a pertinência e qualidade de um livro não se relacionam com a sua taxonomia num ou em outro género. No que diz respeito à literatura dita fantástica, às vezes encontro mais imaginação e arrojo em livros que parecem estar fora dela, pois possuem uma imaginação mais desafogada, livre das tais cavilhações de género que só servem finalidades comerciais, porque o cliché, enquanto unidade constitutiva, por força da familiaridade, tem sempre mais aceitação imediata que algo exótico. Quantos fãs de literatura fantástica já terão lido obras verdadeiramente originais, como o maravilhoso «The Chess Garden» de Brooks Hansen, em vez das inanidades pseudo-medievaleróticas e quejandos que passam por fantásticas hoje em dia? De fantástico terão pouco, de facto, e de literatura, então, nada têm. Pode ser ingenuidade minha, mas fico muitas vezes surpreendido com a impunidade com que se publica o lixo que ocupa espaço nas livrarias.

Mas, na verdade, se acham a minha obra fantástica ou não, no fundo, não me interessa nada. É fantástica, é desfantástica? É o que quiserem que seja, porque a interpretação é exterior à obra, não a contamina. Os livros estão escritos, são lidos, apreciados, criticados, fica aquilo que quem os ler for capaz de entender e retirar. Se forem leitores cultos, inteligentes, que gostem de ler, que não se sintam diminuídos por aprenderem coisas e palavras novas, vão retirar bastante, ao contrário daqueles que apenas querem encontrar coisas e palavras que não os desafiem, aqueles que querem apenas entreter-se na acepção mais elementar.

No fundo, comunicar não me interessa. Nenhum artista autêntico está interessado em comunicar, nem poderá esperar que isso aconteça, a não ser que esteja disposto a ir bater à porta de todo o seu público a perguntar a cada indivíduo o que achou da obra, porque isso é que é comunicar. Ora, eu estou interessado em transmitir, que é diferente. É por ser artista, por ser escritor, que tenho ideias para transmitir, ideias que eu considero importantes para o público. Acho que a diluição da fronteira entre artistas e público está a matar a arte. Bem sei que estamos na era do Facebook, do Twitter e afins, que são mais ou menos úteis em divulgar aquilo que se faz, mas acho que faria bem a todos se se reforçasse essa fronteira.

7. O que podemos esperar para breve de David Soares no futuro próximo?

Consideremos o próximo ano como esse futuro próximo: um novo romance e um novo livro de banda desenhada.

hugo teixeira, a cena de uma entrevista

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Hoje acordei com uma ideia a moer-me cá na orelha esquerda. Quem é Hugo Teixeira? O que se passa dentro daquela carola que ele teima em embelezar com headphones todos marados? Terá uma mente perversa que tenta disfarçar com fotos, enviadas via express Instragam, de um gato mais fofo que a Madre Teresa? E a barba servirá para esconder marcas de guerra de paintball? Ou desde que começou a ver Dr. House acha que uma barba mal aparada é sinal de gajo que domina diferenciais?

Foi com a ideia de perceber quem é Hugo Teixeira que lhe coloquei uma série de perguntas armadilhadas, porque na realidade é um teste psicotécnico. Espero provar que Hugo Teixeira é um anão disfarçado que assassina caracóis em manteiga 100% reciclada como combustível para criar magia.

Bora lá:

1. já sei que não sabes desenhar, por isso qual o teu truque para ofereceres pranchas de imensa qualidade?
eh pá, questão difícil, ainda hoje disse isso, eu não sei desenhar, mas sei fazer cenas, cenas tas a ver, aquilo que eu QUERO realmente fazer… só não me venham com matemática!

2. não tens medo de ser sequestrado para apresentares o mais breve possível o volume II MAHOU, Na origem da Magia – porque a existir culpado és tu e não Ana Vidazinha?
Pá não sei qual é a idade dos raptores, se forem os miúdos das imensas escolas que ando por esse país afora era mesmo curtido, podia melhorar a história mil vezes… agora imagina se fossem os meia dúzia de nerds portugueses O_O

3. quando comes caracolis atacas o bicho morto com um grafo ou um um palito?
Com os dentes às vezes ou então faz-se aquele barulho específico, shlep! ao chupar.

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mahou, na origem da magia

4. não andas a perder tempo demais com o Instagram quando podias avançar mais no mundo da magia?
Através do instagram incito magia, já reparaste, tudo tem a sua magia, mesmo que seja…uma foto a um esqueleto…
Quando era puto (ainda sou, mas o reumático está a querer instalar-se) gostava imenso de ver locais de onde os outros desenhavam e coloriam, aí sim era um mundo mágico para mim. Quero oferecer isso.

5. quando não brincas de DJ, ou tentas enfrentar um dólmen, tens tempo para pensares em banda desenhada? ou achas que aqui neste país é um caso perdido?
esta é difícil. pá! Dolmens é só nas férias, brincar de dj é uma coisa que já cá está desde que oiço música, agora para me acalmar e concentrar brinco com isso, ah e legos também. O país não mas eu sou um caso perdido, completamente entregue a mim mesmo.

6. não tens medo de te tornares um cromo da BD sempre de barba por desfazer? ou achas que isso é o teu estilo?
Sempre chamei preguiça à barba. Pronto tenho que marcar mais sessões de tosquia com a veterinária, mas diz lá, dá um certo estilo não?

7. hum não existe 7, mas eu respondo: pá porque é que perdi tempo com isto e daqui a pouco vou perder ali tempo no national geográfic com a tv em temporizador e acordar amanhã à tarde
E voltar a repetir tudo… ah! não! É amanhã, (hoje? sempre perdido no tempo) o Amadora BD, vou ver pessoal que não vejo há bue, vai ser porreiro!

Comprem um livro e pranchas originais fantásticas que eu tenho para venda, não sei desenhar mas sei fazer cenas, montes delas.

Afinal quem é Hugo Teixeira?
Uma coisa é certa é um tipo que tem um fetiche por cenas realmente mágicas!
Por isso comprem o seu livro Mahou, Na Origem da Magia e mergulhem sem dificuldade num mundo de verdadeira magia feita de palavras e imagens. Aproveitem que ele vai estar presente no Amadora BD; para o encontrar nada mais fácil, basta seguir as setas.

um problema químico…

tomate e chouriça
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Para mim ter uma relação sexual é tão normal como roer a unha do dedo grande do meu pé esquerdo ou, numa imagem mais inocente, como pescar moncos dentro do nariz. Entendo, que pessoal, que só “faça o amor” a cada 29 de Fevereiro se sinta revoltado com a minha desenvoltura – temos pena!

Contudo, hoje, não falarei de sexo, mas de química, para perceberam que BigPole é um poço de sabedoria e para abafar, igualmente, os críticos mentecaptos.
Irão concluir, não apenas que a química está presente em muitos actos da nossa vida, mesmo naqueles que pensamos que não, como eu subjugo não apenas o sexo como a química. Um pouco de arrogância nunca me fez qualquer mal.
Acho que será a primeira vez que vai ser tratado, de forma consensual porque quimicamente, o resultado de uma actividade realizado por qualquer ser humano desde sempre. Tentarei usar uma linguagem simples, singela. Aqui vai…

Ontem, ou se preferirem hoje de madrugada, eram cerca das 03h15m, num ambiente de néon proveniente da minha sanita, quando estava a descer uma calça Denim Fit Loose e uma cueca boxer Hom, com um adorável desenho de fantasia e, cuja textura ultra-leve aconchega na perfeição o meu orgão genital, para alapar as nádegas numa Kohler com assento aquecido, pensava no tempo que se perde a evacuar; daí que tenha sempre à mão algumas revistas para folhear.

Depois de terminar o meu serviço, já com o regueiro limpo e não uso papel higiénico, mas sim as opções de uma sanita 4-1, tem, também, função de bidé e como tal recebo no sítio adequado um jacto de água oscilante a uma temperatura suave e um fluxo de ar quente para secagem, tudo ajustável por comando, ah! e tem controlo de odor, puxei o autoclismo, atirei a roupa para o cesto de roupa suja, e nu preparava-me para um rápido banho de imersão ao som de uma relaxante música ambiente, quando reparei que ficou a boiar no fundo da sanita um resto, razoavelmente redondo, de fezes. Assustei-me. Enojei-me ver aquela coisa a enfrentar-me do fundo da minha Numi. Decidido a acabar com isso usei a função flush-full. O impossível aconteceu e o naco de fezes ganhou ao turbilhão aquático e lá permaneceu a boiar plácido. Assustado duplamente fiquei. Aquilo não se misturava.

Humm….. estaria perante um problema de polaridade? Duplo hummm… hummm…
Vejamos: bebi umas boas cervejas, acompanhadas por um petisco capaz de fazer corar o colesterol. E como sabemos que a água é uma substância polar e as gorduras apolares estaria perante um pedaço de fezes hidrofóbico? Grande questão química percebem? Novo flush-full, o mesmo resultado. Conclui que tinha de anular de alguma forma a polaridade das fezes e como tal atirei para dentro da sanita uns guardanapos que fui buscar à cozinha. Desta vez experimentei um eco-full e pumba o poio desapareceu nos meandros do esgoto. Milagre químico.

Conclusões a tirar? Primeiro que foi mais fácil afundar o Titanic; segundo que tenho de cortar nas gorduras.


o vosso químico BigPole

hand jobs – mr. esgar’s artshow

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E lá consegui visitar a Hand Jobs – Mr. Esgar’s ArtShow. A minha filhota teve de ir connosco e nunca sei como ela pode reagir às novidades; é um risco não assegurável.

esgar acelerado

take me to your leader; surrealistic dream; come to new york; waitress

O local da exposição é amplo e permite passear sem confrontos. A playlist da música ambiente é cativante. No lado direito, ao fundo, temos o espaço multimédia (uma televisão revela os trabalhos de Esgar Acelerado em movimento). Aí perto existe o bar onde bebi um saudável vinho do porto e comi um doce recheado com chila.

esgar acelerado

eu, o copo, o vinho, os doces e o pin

Ganhei de oferta um pin. A minha filha teve direito a dois que gosta de exibir ao estilo de inveja mode ON.

Os trabalhos são admiráveis. O artista é um bom artista, mesmo devidamente mascarado para as ocasiões. Uma exposição a visitar. Um artista a conhecer ou a redescobrir. Garanto ninguém ficará indiferente.

esgar acelerado

jó; baptista

esgar acelerado

esgar acelerado

o filho de mil homens

esgar acelerado

artentado!!!

Ainda tive tempo para uma troca de palavras e para uma divinal (se assim se pode dizer) foto com Esgar.

esgar acelerado

eu e ele (esgar acelerado)

as outras duas descobertas: “janelas de futuro”

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No dia 25 de Setembro escrevi

Hoje foi um dia de descobertas; duas trouxeram uma frutada surpresa a terceira revelou-se completamente inebriante.
Resolvo para já assinalar a descoberta “inebriante”.

Hoje é dia de escrever sobre as duas descobertas frutadas. Aqui está a segunda.

O projecto Braga Parque “Janelas de Futuro” – Exposição urbana de arte criado no âmbito do rebranding da marca Braga Parque teve uma breve passagem pela cidade de Barcelos; até fim de Outubro, ainda, pode ser visto no Braga Parque.

Foi uma exposição interessante e um desafio ganho pelos criadores:

  • Storytailors – Moda
  • Alexandre Farto (Vhils) – Consumo Urbano
  • Filipe Pinto Soares – Universo Infantil
  • Tiago Bettencourt – Música
janelas de futuro

infância feita de futuro, filipe pinto soares

Enquanto a minha filha passeava pelo Largo da Porta Nova de bicicleta pude sem confusão e com tranquilidade admirar os trabalhos.
Não consegui tirar grandes fotos devido à claridade da manhã e aos vidros que protegiam os quatro enormes expositores. Mas eu vi bem e é isso que interessa.

lisboa triunfante

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O homem erra quando afirma ou nega. Destrói quando edifica sobre ruínas que revolve para abrir os alicerces. E, surpreendentemente, sem querer saber da presença do homem… o mundo existe!

palavras de Valadares, página 318

 

O ano passado (Agosto.2010) estava a relaxar numa quinta (Quinta de Gatão) perto de Felgueiras como o resto da família quando certo dia (14.08) o meu filho (a reboque da irmã) sentiu saudades do sabor gourmetde um Mac; deslocamos-nos a Felgueiras para esse petisco tão regional; sentado na esplanada entre duas trincadelas convenceu a irmã a visitar a Fnac no NorteShopping que ao melhor estilo moscardo nos picou (leia-se pai e mãe). Na Fnac os meus olhos que passeavam sem destino por entre paletes de livros pararam numa obra com um título sugestivo “O Evangelho do Enforcado” de David Soares. Foi a minha primeira colisão com David Soares.

Estas primeiras palavras têm o propósito de explicar que nunca se descobre um escritor fora do tempo; tal acontece quando uma série circunstâncias (das mais imagináveis) nos levam ao seu encontro.

[…]

O que é “Lisboa Triunfante”? Acima de tudo uma odisseia da imaginação (até de investigação etnográfica); e sem qualquer embaraço é uma obra com uma linguagem hipnótica excruciante através da qual duas figuras se gladiam desde tempos memoriais.

A qualidade narrativa do escritor (e)leva-nos, sem qualquer dificuldade, a observar Lisboa de cima como se a tivéssemos colocado entre uma lâmina e uma lamela tal é a qualidade com que a história da cidade é despejada, pintalgada aqui e ali de sangue, nas páginas que sofregamente fui lendo; são páginas repletas de palavras com têmpera. Os acontecimentos vão-se desenrolando com uma dureza cruel e flexível; e as personagens, até aquelas de índole moral questionável, são vigorosas, íntegras nos princípios que defendem independentemente destes nos parecerem dúbios, mesquinhos, sanguinários.

Por isso nos acontecimentos narrados vejo-me ali ao lado da populaça a comer umas favas fritas enquanto assisto ao espectáculo da “queima dos vivos” – bendita máquina do Dr. Moloch aka David Soares; noutros acontecimentos estou a flutuar pelo ar e a observar em tempo real a corrida tresloucada do “elefante aterrorizado”. Por isso, ainda hoje, tenho a quase certeza de que David Soares é um alien que manipulou sub-repticiamente a história de Lisboa e a vida de alguns dos seus habitantes, não apenas para seu bel-prazer, mas igualmente para nos oferecer uma narração das mudanças crónicas que a sua manipulação originou.

E como se o caldo já não estivesse devidamente recheado David Soares ainda nós vai enchendo a panela com mais especiarias. São estes pequenos e constantes condimentos que tornam a leitura ainda mais enriquecedora; é o caso de um Pessoa que se vislumbra poeticamente numa livraria que eu gostaria, também, de visitar.

É um romance de grande fôlego que se deve ler pausadamente; acompanhado por uma delicada música ambiente e por um pujante Dry Martini – é uma forma, entre muitas, de ler “Lisboa Triunfante”.

“Lisboa Triunfante” está dividida, no que o escritor chama carinhosamente de capítulos, mas que sei serem painéis e não é coincidência serem seis; o nome “epílogo” não deve ser contabilizado – está lá, fundamentalmente, para despistar.

Agora que encostei (aconchegado) o “Lisboa Triunfante” ao “Evangelho do Enforcado” sinto-me na obrigação de evangelizar mais leitores para este fantástico escritor português que se chama David Soares. Não se vão arrepender, nem precisam de me agradecer; e haverá sempre umas palavras que irão brotar biblicamente dos vossos lábios: “Onde estava David Soares? Não estava perdido, mas foi achado. E agora que o encontrei vou fazer uma festa e alegrar-me com um novo romance seu; nem que tenha de esperar para o halloween.”

eu e ele

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Esta pessoa que me acompanha na foto descoberta no meio de imensos relatórios de análises clínicas é o meu querido tio João.
Muita gente não gosta dele porque é um sacana frontal, mas eu adoro-o!!! (viram os pontos de exclamação!!)

Com ele descobri o que é ouvir música e acima de tudo aprender desde cedo a “curtir” jazz, blues. Nem todos os putos se podem orgulhar de adormecer ao som de um Chet Baker ou de um Sonny Rollins e já agora de uma Odetta.

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eu e o tio joão

Aprendi a gostar de Pink Floyd, King Crinsom, Nazareth, Emerson Lake Palmer, Jethro Tull, Paco de Lucia, Frank Zappa, Édith Piaf, Glenn Miller, Muddy Waters, John Lee Hooker, Cajun French Music, Eagles, Dire Straits, The Doors, Queen, Procol Harum, Jimi Hendrix e de muito, muito, imenso jazz, blues que não me recordo de memória, aponto Duke Ellington, Louis Armstrong, Charlie Parker, Dizzy Gillespie, Modern Jazz Quartet, John Coltrane, Henry Mancini…

Houve um dia que descobri, também, umas revistas “Gina” numa gaveta – felicidade suprema!

eu e uma tattoo

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tattoo, fase um

Ontem foi a minha vez de me colocar nas agulhas de Marco Martins (no mês anterior foi a minha irmã que se ofereceu uma nova tatuagem no pulso).

Fui sempre com a ideia de que me ia doer um pouco; apesar da minha tattoo anterior não me ter doído nada, excepto numa parte; ou recalquei a dor para ficar com a ideia de que não doeu – é uma ideia.

Desta vez doeu como ó caralho. Deve ser a idade? ou do local em que decidi colocar a tatuagem.

tattoo, fase dois

Se soubesse que doía tanto não seria isso que me negava uma nova tatuagem, mas ao menos ia mentalmente anestesiado.

O Marco logo no início da sessão tenha dito que ia doer, mas o tipo é um brincalhão. Pensei que era piada de tatuador. E o que é “doer”? É tão subjectivo!

tattoo, fase três

Doeu.
Não o suficiente para me arrepender. Não o suficiente para não pensar fazer outra. E, ainda, aproveitei para colocar os olhos dos três corvos da minha primeira tatuagem de vermelho – ficaram mais diabólicos.
O branco com que tinham sido pintados anteriormente não tinham estilo e muito menos piada.

tattoo, fase final

Recomendo o Marco Martins para a vossas tatuagens. E se ele disser que vai doer não acreditem… ele é um brincalhão.
E o que custa fazer uma tatuagem a ouvir uma música para relaxar? Nada, pois! A “dor” é tão nossa, tão subjectiva. Mas nada como experimentar…

corvos

corvos com os olhos de vermelho

blue lagoon

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Hoje estava com o objectivo de ficar no Subhata-Bar até às tantas, mas fiquei apenas até às poucas.
A filha que entrou para a pré-escola não tinha hoje a energia habitual.
Noutra altura contrato a babysitter para tomar conta da míuda – e a música era do meu tempo… do meu tempo… hummm; isto é mau.

8e_0359

dilmah tea

Bebi ainda um apetitoso Blue Lagoon e a minha mais que tudo um chã Dilmah.

a origem

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Em poucas palavras posso dizer que é um filme brutal de Christopher Nolan, o mesmo realizador de Memento. Está bem realizado e com um elenco que se movimenta na perfeição. A banda sonora de Hans Zimmer assenta que nem uma luva.

Apesar de se alguém entender que pode ser comparado a Matrix isso seria redutor: Matrix é o que é, Inception vale por si. Matrix trouxe algo de novo ao cinema, Inception não traz nada – não deixa de ser como referi um filme “brutal“, mas aqui deve ser entendido pelo conjunto: direcção, actores, história, música e por um grandioso mind twist. E porque não relembrar, já agora, por comparação?, o “The Thirteenth Floor”, “The Machinist”, “The Jacket” e até “Shutter Island”.

Inception é um filme que nos cola ao assento. Se é original ou não a história isso para mim é irrelevante – o que me interessa é a forma como me é oferecida visualmente.