encontros de literatura e banda desenhada – amazonas contemporâneas

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Estes encontros, compostos por quatro debates: 16, 19, 21 e 23 de Janeiro, estão integrados nas comemorações do 40º aniversário do ILCH e pretendem abordar a relação entre a literatura e a banda desenhada, ou como referiu o Prof. Manuel Curado na sua mágica intervenção “o que cola“.

No dia 16 tivemos: Herdeiras de Wonder Woman. As Amazonas na Ficção Popular Contemporânea

Desde a criação de Wonder Woman em 1941, abundam na ficção popular as mulheres que defendem pela força a liberdade de decidir o seu destino. Entre elas, contam-se Katniss Everdeen (Os Jogos da Fome) e Lisbeth Salander (Millenium. Os homens que odeiam as mulheres). Com Diogo Carvalho, exploramos os modos como estas personagens contribuem para a vitalidade e diversidade da nova mitologia das amazonas.

Hoje será: Maus, de Art Spiegelman. Um romance Gráfico do Holocausto

Um testemunho real de um sobrevivente de Auschwitz, é isto, entre muitas outras coisas que podemos encontrar neste romance gráfico de Art Spiegelman. Com Marie Manuelle Silva, abordamos as técnicas gráficas, os recursos narratológicos e as figuras estilísticas que o autor usa para representar o Holocausto de forma real e impactante, inscrevendo este estrondoso sucesso de público e de crítica em diferentes correntes da tradição literária e da tradição ilustrativa.

No dia 21 será: O Motivo do Herói Órfão. Oliver Twist e os Heróis da Banda Desenhada

Quantos heróis que conhecemos são, de uma ou outra forma, órfãos. Trata-se de uma lei ou de puro acaso? Tendo Oliver Twist de Dickens como ponto de partida e Margarida Pereira como convidada, iremos procurar na literatura a origem deste motivo presente na BD e nos Comics.

No dia 23 será: Para Além do Véu. Persépolis, de Marjane Satrapi

Conversamos com Said Jalali sobre o romance autobiográfico de Marjane Satrapi, Persépolis, que é o olhar de uma menina sobre as alterações radicais introduzidas pela revolução de 1979 na vida quotidiana da sociedade iraniana. Romance de formação escrito e desenhado num contexto de deslocamentos geopolíticos e geoculturais à escala global, Persépolis narra os exílios de Marjane – tanto fora como dentro do Irão.

Herdeiras de Wonder Woman. As Amazonas na Ficção Popular Contemporânea teve como convidado Diogo Carvalho.
Antes da sua apresentação foi nos oferecida uma mágica intervenção pelo Prof. Manuel Curado. Esta intervenção foi de tal forma intensa, poética que logo se percebeu que a noite ia ser em Grande. O Prof. Manuel Curado revelou sem sobressaltos e com um dialéctica argumentativa tão bem tecida a razão da literatura, nas suas mais diversas formas, nos invadir os sentidos desde sempre. O Prof. Manuel Curado provou ser o nec plus ultra do mágico das palavras e conseguiu deliciar-me ainda mais quando terminou o seu acto com as palavras “o diabo do espelho.

diogo carvalho

diogo carvalho

Diogo Carvalho, a razão que me dez deslocar a Braga, esteve perfeito a falar, sem papas na língua, sobre a Wonder Woman per si, falou nas mudanças no seu uniforme (como sinal dos tempos), os seus motivos como heroína, o seu protagonismo e a forma como foi/está actuando/actuar no universo de super-heróis. Conseguiu em poucas palavras contextualizar a sua criação, com doces e picantes pormenores. Falou do seu multifacetado criado, William Moulton Marston. Falou do presente e do futuro da Wonder Woman.

Quanto a Katniss Everdeen e Lisbeth Salander como amazonas herdeiras da Wonder Woman o que fica em resumo é que ambas são os Alpha das suas histórias. Como mulheres fazem, “e como colocar isto sem ofender, mas tendo de utilizar um cliché“, perguntava Diogo Carvalho, “um bom trabalho de homem. Ou melhor, um trabalho atribuído geralmente ao homem.”

Katniss Everdeen faz o que faz por amor à irmã, ofereceu-se como tributo, e acaba por agir sempre por estímulo. Perante um problema, age. Não cria problemas, mas encontra soluções por… impulso. E perante uma sociedade distópica, acaba por ser ela, pela sua perseverança, coragem, abnegação, a alavanca (“Deem-me um ponto de apoio e moverei a Terra.”) para derrubar o sistema por dentro – implosão.
Lisbeth Salander faz o que faz por vingança. Ao contrário de Katniss Everdeen, Lisbeth Salander perante uma situação adversa, raramente age por impulso. Tudo é planeado. Ela está por fora de um sistema deficiente, corrupto e as suas acções levam a que este expluda.

Foi colocada uma questão. Se elas são o que são ou fazem o que fazem por não estar presente a figura do pai – acho que a ideia da pergunta é esta (contudo, posso estar errado).
A pergunta é interessante e a resposta aceite é que em ambas o pai, pode ou ser o modelo ou a motivação para elas serem como são – fortes, independentes.
Quanto a Katniss Everdeen é fácil concluir que é a ausência do pai que a torna o que é uma Alpha. É ela a razão de a mãe e irmã estarem vivas.
Quanto a Lisbeth Salander foi a existência de um pai que a torna Alpha por competição e sobrevivência.

Se o papel poderia ter sido atribuído a um homem? Podia, mas o efeito não seria tão másculo.

Katniss Everdeen e Lisbeth Salander comprovam acima de tudo que qualquer ser humano consegue ser Homo homini lupus. Apenas são precisas certas circunstâncias, uma série de eventos catalisadoras da nossa natureza predatória.

Isto são pensamentos avulsos que fui tendo e que decidi agora transcrever.

Avalio positivamente o encontro. Adorei as conversas muito interessantes e estimulantes. Os alunos do Mestrado de Mediação Cultural e Literária estão de parabéns.

as outras duas descobertas: “fé nos burros”

fé nos burros
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No dia 25 de Setembro escrevi

Hoje foi um dia de descobertas; duas trouxeram uma frutada surpresa a terceira revelou-se completamente inebriante.
Resolvo para já assinalar a descoberta “inebriante”.

Hoje é dia de escrever sobre as duas descobertas frutadas. Aqui está a primeira.

fenosburros

fé nos burros, apresentação

Fé nos Burros” consiste num projecto de fotografia e vídeo de João Pedro Marnoto em colaboração com a AEPGA (Associação para o Estudo e Protecção do Gado Asinino) e com o apoio do Município de Alfândega da Fé que pretende enaltecer a importância da relação Homem-Animal, com especial relevância para as burras, burros, mulas e machos.

Através da presença destes animais, iremos descobrir facetas do quotidiano dos seus donos, desde a sua cultura material, saberes e fazeres de tradição oral, modos de pensar, até aos seus sentimentos e emoções. Deste modo, enquanto se perpetuar esta cumplicidade entre o Homem e o Burro haverá sempre esperança na sobrevivência da espécie que desde sempre fez parte da nossa história e memória colectiva. E que queremos continuar a celebrar e preservar.
texto retirado do site da AEPGA

Esta exposição estava em exibição ao ar livre na Avenida da Liberdade (Barcelos).
E foi uma boa descoberta. Eu via os burros, a minha filha passeava por lá de bicicleta, eu via mais burros e pensava em outros burros.

fé nos burros, duas fotos

fé nos burros, duas fotos

o dossiê sócrates

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Poucas vezes trago política ao meu blog.
Nem pretendo com esta entrada fazer política ou revelar as minhas tendências ideológicas. O que desejo é a dar mais uma vez dar a conhecer um livro escrito com imenso sofrimento por António Balbino Caldeira que eu tive o prazer de ler na data do sua edição em 2009.

É um livro que deve ser lido sem preconceitos e sem ideias pré-concebidas.
Como já aqui escrevi deve ser lido porque ainda existem pessoas como António Balbino Caldeira que nos surpreendem pela coragem e espírito democrático; mais uma vez revela que a “verdade não deve ter vergonha de nada, a não ser de estar escondida“.

O seu livro é de leitura obrigatória para todos o que vêm a verdade como algo de balsâmico, porque

A verdade não tem nenhuma hora especial para ela. Sua hora é agora e sempre.
– Albert Schweitzer

E sobre o autor, o homem, o português copio isto, já aqui emprestado:

Sou homem: penso, sinto e ajo. Sou cristão: não acredito na vingança. E sou cidadão: livre. Nada de pessoal. Com base naquilo que foi publicado, escrevi sobre aquele que é o maior escândalo do pós-25 de Abril em Portugal: em defesa das crianças; dos denunciadores do Horror dos abusos de décadas sobre centenas de meninos órfãos e indefesos, numa instituição do Estado criada para os proteger; e dos corajosos investigadores da Polícia Judiciária e magistrados que ousaram resistir aos ataques do poder político.

Comento factos públicos: não acuso porque não sou do Ministério Público; nem julgo porque não sou juiz. Por isso, não imputo crimes a ninguém. Mas, como cidadão livre, posso opinar sobre os factos, não me sujeito a qualquer censura e não me vergo perante o poder, nem sequer em processos políticos. Tenho o direito à liberdade de expressar a minha opinião sobre factos e, até creio, a obrigação cívica de intervir politicamente.

o edifício

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Os edifícios antigos não nos pertencem. Em parte, são propriedade daqueles que os construíram; em parte, das gerações que estão por vir. Os mortos ainda têm direitos sobre eles; aquilo por que se empenharam não cabe a nós tomar.

Temos liberdade de derrubar o que construímos. Da mesma forma, o direito sobre obras a que outros homens dedicaram a vida para erigir não desaparece com a sua morte.

John Ruskin (palavras retiradas do álbum “O Edifício”

“O Edíficio” é uma obra de grande qualidade gráfica inquestionável que tem como ponto de partida as palavras de John Ruskin. Lida em 1989, na colecção Graphic Novel n.º 8 da Editora Abril, levou-me a conhecer outro lado de Will Eisner, que é muito mais do que Spirit.

dois sims

pato
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Hoje, uma vez mais, fui expulso da cama pela minha mulher. Senti-me um ió-ió. Umas alturas quer o meu calor e beneficiar das minhas capacidades tântricas, outras vezes empurra-me da cama abruptamente apenas porque o relógio diz-lhe que as horas para ir laborar se encurtam. É desculpa. É? Desde quando é que ela é o meu relógio de cuco? Hummmm… Desde que ela consegue acordar com o despertador e eu não… talvez seja isso?

Mas não é isto que devo destacar na manhã do dia de hoje. Ocorreram duas coisas. Uma menos grave e outra mais grave.

A coisa menos grave foi o facto de chegado à cozinha e após a toma dos dois comprimidos habituais olhar para o relógio lá pendurado no alto e reparar que o ponteiro dos minutos estava no número nove e sair disparado de casa com o saco de lixo na mão. Estranho não ver as habituais pessoas na rua e olhei para o relógio de pulso e são 8h.25m – pois, já me lembro, são precisas pilhas para o relógio da cozinha. Aproveitei o tempo de sobra? e fui fazer “horas” para o parque, enfim ver os patos.

A coisa mais grave, veio na ocorrência do jantar de ontem com dois autênticos pândigos, p. e h.; quando lhes confidenciei que sempre que me vinha à mente um breve farrapo, uma ideia perante um acontecimento observado ou uma frase ouvida, pegava no pequeno caderno de apontamentos e registava numa folha branca ali mesmo na rua, no café, em qualquer lugar, onde a ideia tinha despertado, algumas palavras para futuro desenvolvimento no meu blog, persuadiram-me – e agora que escrevo isto devidamente distanciado dos copos, dos tremoços, da chouriça, do hambúrguer, talvez tenha sito da Mc Chouffe ou da Duvel – a usar o gravador do meu telemóvel: “Paulo nem parece teu não usares as novas tecnologias. E sempre podes disfarçar que está a falar com alguém.”

Tenho um Nokia N80 e para facilitar o uso do gravador decidi substituir nas opções do “Modo de Espera” a tecla de selecção directa, actualmente, “Galeria” por “Gravador de Voz” – pensado e executado enquanto subia a Avenida Alcaides de Faria.
No parque da cidade já estava de telemóvel encostado ao ouvido a falar para ninguém. Encontro-me com um agradável conhecido, páro de falar, emito um cumprimento rápido, e aponto para o telemóvel a desculpar-me porque não posso ficar por ali a trocar algumas palavras, quando o telemóvel toca….
… olho para o telemóvel, olho para o agradável conhecido surpreendido e comento, após atender a chamada, o quanto detesto as novas tecnologias, que não devia ter comprado um telemóvel que permite a utilização simultânea de dois cartões SIM porque corta a chamada do outro número sem aviso, que ainda por cima tenho agora de ligar para a outra pessoa e gastar saldo do cartão. Durante 5 minutos ficamos ali, junto aos patos, a comentar e a acenar em concordância que a tecnlogia é coisa do demo e que os telemóveis nos tiraram a liberdade e o sossego.

most people are not really free

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Most people are not really free. They are limited by ethics and morality imprinted on them by their parents and the society in general. This is not necessary a bad thing, because it teaches them how to handle different situations and problems in life.

Many people don’t deviate from that pattern, but some go beyond that and makes their own conclusions of what life is all about. Imagine if everything you have learned is wrong. Where would you start to get straight again? We are all influenced by the media in one way or another. How do you know you’re not affected by what they say, and act according to that?
We can’t make any progress if we are slaves to the system. Don’t take anything for granted, and question all information.
If you choose to live free and take the consequences of that, it’s going to be hard. It ain’t easy to try and choose your own destiny, but if you don’t have your freedom, you don’t really have a anything at all.

What we need to do, is to break free of the established ways of thinking, and take a hard look at what really matters. We can’t always look to the past for solutions. What happen in today’s world has no precedence in the history of mankind. We have to look further than that. Next century belong to us.

from http://www.maths.qmul.ac.uk/~ade/sld/

A partir de uma frase de V. S. Naipaul (“Most people are not really free. They are confined by the niche in the world that they carve out for themselves. They limit themselves to fewer possibilities by the narrowness of their vision.”) um autor anónimo escreve um texto cristalino.
Este texto fazia parte meu blog de 1999 e, lamentavelmente, apenas consegui recuperar esta pequena parte.

a servidão humana

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Quando Philip deixou de crer no cristianismo, sentiu que um grande peso lhe fora tirado dos ombros; despojando-se da responsabilidade que sobrecarregava cada acto, quando cada acto era de infinita importância para a salvação da sua alma imortal, experimentou uma viva sensação de liberdade. Mas agora sabia que isso fora uma ilusão. Ao abandonar a fé em que fora criado, mantivera intacta a moral que era sua parte integrante. Resolveu, então, pensar por si mesmo sobre as coisas. Determinou não se deixar influenciar por preconceitos. Descartou-se de vícios e virtudes e rejeitou os princípios assentes do bem e do mal, com a ideia de encontrar por si próprio uma norma de vida.

A Servidão Humana de Somerset Maugham” é uma obra poderosa que foi, na semana passada, relida com os mesmos olhos, mas com outro saber; são mais 20 anos em cima das costas.

1994, o casamento

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revista bride, 1994

revista bride, 1994

.abertura de parênteses.
Em 1994 não tivemos a 100% a visão de George Orwell, mas o caminho para o controlo total do individuo pelo estado e pelos gigantescos grupos privados financeiros / farmacêuticos / de saúde/ de comunicação já está pavimentado.
O Big Brother é uma questão mais de oportunidade do que de tempo.
.fecho de parênteses.

Em 1994:

  • Morre Ayrton Senna após bater com o seu Williams na curva Tamburello.
  • Morre Walter Lantz, cartoonista americano criador do Pica-Pau.
  • Morre Agostinho da Silva, filósofo e poeta português.
  • Morre Kurt Cobain, músico e compositor.
  • Morre Fernanda de Castro, escritora.
  • Morre Richard Milhous Nixon, 37° presidente dos EUA.
  • Morre Henry Mancini, compositor.
  • Morre Karl Popper, filósofo.

e morre a minha liberdade individual ao casar-me com uma mulher espectacular e passados que são estes anos todos descubro nas minhas constantes arrumações a revista que serviu de imaginação ao seu vestido de noiva.

“sou homem: penso, sinto e ajo”

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Os mais atentos têm seguido com atenção o inferno de António Balbino Caldeira. A sua vitória é a nossa vitória. António Balbino Caldeira mostrou, dolorosamente, que temos o direito de opinar.

Estas suas palavras não devem ficar esquecidas e como tal tomo a ousadia de as pedir “emprestadas”.

Sou homem: penso, sinto e ajo. Sou cristão: não acredito na vingança. E sou cidadão: livre. Nada de pessoal. Com base naquilo que foi publicado, escrevi sobre aquele que é o maior escândalo do pós-25 de Abril em Portugal: em defesa das crianças; dos denunciadores do Horror dos abusos de décadas sobre centenas de meninos órfãos e indefesos, numa instituição do Estado criada para os proteger; e dos corajosos investigadores da Polícia Judiciária e magistrados que ousaram resistir aos ataques do poder político.

Comento factos públicos: não acuso porque não sou do Ministério Público; nem julgo porque não sou juiz. Por isso, não imputo crimes a ninguém. Mas, como cidadão livre, posso opinar sobre os factos, não me sujeito a qualquer censura e não me vergo perante o poder, nem sequer em processos políticos. Tenho o direito à liberdade de expressar a minha opinião sobre factos e, até creio, a obrigação cívica de intervir politicamente.

Os meus sinceros parabéns.

deixados para trás

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Meu maior medo, uma vez constada a verdade, foi que não havia mais esperança para mim. Perdi a oportunidade única. Tinha sido um falso cristão, estabelecendo meu próprio modelo de cristianismo, que foi feito para uma vida de liberdade, mas que me custou a alma.

Tim Lahaye e Jerry B. Jenkins, Deixados Para Trás
título original: Left Behind
tradução: Rubens Castilho
editor: United Press Ltda, 1997
citação: página 179