bolachas maria

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Que me perdoe Umberto Eco, mas não consigo digerir o seu livro “A Ilha do Dia Antes”. É culpa minha eu sei, mas devo dizer que tentei por diversas vezes avançar uma página e outra página e mais outra, sem resultado. Não me sinto tão culpado se não me esquecer que adorei ler “O Nome da Rosa” e “O Pêndulo de Foucault”.

Agora falo assim porque finalmente compreendi tudo do meu corpo. Estudo-o dia após dia, sei o que se passa nele, salvo que não posso intervir, as células já não me obedecem. Morro porque convenci as minhas células de que não há regras, e de que de cada texto se pode fazer o que se quiser.

O Pêndulo de Foucault, ed. Círculo Leitores, 1990, pág. 497

 

Mas será que, afinal, ando temporariamente sem paciência para este tipo de literatura ou é algo de definitivo? Este pensamento já me tinha vindo à mente quando escrevi o post a diaba. Na altura pensei, como é que tive paciência para ler isto? O isto é o “Doutor Fausto” de Thomas Mann. Ao seu lado está encostada a Divina Comédia de Dante, traduzida por Vasco Graça Moura, em edição cuidada do Círculo de Leitores (1998). Como consegui continuar a sua leitura depois de

 

No meio do caminho em nossa vida,
eu me encontrei por uma selva escura
porque a direita via era perdida.

 

ainda está por explicar ou tem duas simples explicações:

– não fui obrigado a ler Dante, como o fui, por exemplo, a ler Luís de Camões ou Eça. Fraca explicação porque adorei de tal maneira Eça que depois d’ “Os Mais” “papei” tudo que era de Eça;

– sou saudavelmente fascinado por ambientes góticos – ver inclusive a minha tatoo – e o inferno é na sua essência algo de dark. Esclareço que posso ser, sem grande esforço, um gótico hedonista – o prazer é bom e deve ser perseguido pelo homem; também posso ser um gótico niilista, mas aqui a culpa é desse Nietzsche e da falsa moral cristã que me quiseram impor a ferro-e-fogo. Posso ter perdido os valores de Deus, mas não perdi o sentido da moral. “Deus está morto!” e serviu um doce propósito, ser superado.

São explicações pobres. São, contudo, as que entendo existir, e como não desejei mais continuar a sofrer mandei-me de cabeça, feito tolo, ao livro “A Viagem De Théo” de Catherine Clément.

Assim, ontem ou antes de ontem, ou mais tarde, não me lembro, estava então a ler “A Viagem De Théo” quando fui bafejado por uma chávena de cevada e 6 parcas bolachas Maria entregues pela minha mulher – não digo esposa porque o meu professor de português castigou-me no 10º ano, a propósito de sei lá o quê, dizendo que esposa (sponsa, lat.) significa a prometida, aquela que assumiu um compromisso, enfim, coisas.

Com prazer imerso até metade duas bolachas na cálida cevada e essa metade despega-se e cai dentro da chávena. Não desistindo afundo de uma só vez as 4 bolachas restantes e consigo sem problema leva-las à boca. Continuo a saga mergulhando, mas sempre até metade, as 4 meias bolachas e pumba na boca novamente. Decidido a testar mais arduamente a minha experiência saco de um pacote de bolachas Maria.

Constatei, sem qualquer dúvida, não só que se deve mergulhar sempre 4 bolachas Maria na cevada quente para que estas não se partam, mas também que um pacote inteiro de bolachas Maria sabe muito melhor do que 6 bolachas Maria.

comer gelados

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Relutantemente acordado, ainda eram 14.05, feri de morte um gelado perna-de-pau.
O calor a isso me obrigou. E é sempre adorável sentir nos lábios e na língua uma doce frescura. E ao trincar a ponta do gelado reflecti se o jeito como atacamos um gelado diz algo sobre a nossa personalidade.

Andarei a revelar os segredos da minha alma pela forma como mordo os gelados?