lembro-me de si

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Era mais do que eu podia esperar e foi um puro prazer, um regresso ao passado sem um átomo de desapontamento – o passado recapturado, como um refúgio, tudo o que sempre quisera que fosse uma chegada a casa, mas uma chegada destas a casa (pelo menos no meu caso) nunca acontecera. Era um caminho de regresso maravilhoso, como se aquele homem dos seus cinquenta anos, que da outra vez era um adolescente, estivesses à espera que eu regressasse.

Paul Theroux, Comboio-Fantasma para o Oriente (pág. 290)

comboio-fantasma para o oriente de paul theroux

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Demorei algum tempo a iniciar a leitura do livro Comboio-Fantasma Para o Oriente de Paul Theroux (edição Quetzal), mas agora estou mais do que viciado – fascinante, mágico.

Para já destaco o capítulo 3 – O Ferry Para Besiktas e o capítulo 6 – Comboio Nocturno para Bacu (como me posso esquecer de Baku – Últimos Dias de Olivier Rolin)

Mais apontamentos se necessário.

lol, camouflage 6.1 – by books

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lol in typical Next Thursday fashion has navigated through books never before navigated. He has left the three-dimensional space and entered the multidimensional space. He is looking for the perfect book for his hideaway. So, he jumps from book to book like a grasshopper – free of responsibilities, of deadlines to meet. His current motto could almost be “Pack your knapsack and go.” After so much jumping and running through amazing, minimalist and tragic books, of dense, light and dour writing, he opts, for his lair, for an illustrated book filled with people sitting on roofs, peering from windows and doors, descending and ascending stairs, dressed in blue, green, brown, yellow or striped, traveling on a train, ship or submarine; with strange and normal objects; with real bears and teddy bears; with fish and dinosaurs, horses, cows and even robots. In that crowd, that mosaic of confusion, lol realizes, finally, that he will be camouflaged. Then we hear him say ‘let me through’ while bypassing a green tank driven by a yellow fish; ‘do not push’ as he crosses paths with a blue group of soldiers; ‘do not fall’ as he faces Humpty Dumpty, who is on top of a wall made of books. Then we see him getting more than annoyed when he observes that the house made of cards is occupied by an astronaut, a skier, a conductor, a matrioska. lol throws his arms up high and grumbles loudly ‘SERIOUSLY! EVEN A MATRIOSKA?’

[… an excerpt …]

deutsche bahn

Galeria

Em 1977 foi-me oferecido esta locomotiva. Hoje a minha mãe nas arrumações encontrou em casa dela o meu brinquedo mais adorado e que prova porque ainda hoje adoro comboios.

É uma locomotiva Deutsche Bahn feita pela empresa Modern Toys (Japão).

a prima vera

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Hoje ao almoço a minha filha disse exultante que foi à estação dos comboios receber da prima Vera uma caixa de sementes.
Disse-lhe que não temos uma Vera na família. A mulher atirou-me um olhar penetrante que coalhou a água do meu copo. Corrigi-me e retorqui, então, que deve haver pela parte da mãe uma prima Vera. Ainda tenho a pisadura em estágio 3 para me recordar da resposta desferida por baixo da mesa pelo sapato da minha mais-que-tudo.

Permaneci o resto da refeição calado e dorido. Aprendi, hoje duas coisa:

  • a prima Vera deve ser mesmo importante para as mulheres da casa
  • o sentido de humor estava em baixo

as atribulações de um português no porto

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E antes que digam que existe um livro com um nome semelhante ao título desta entrada, eu coloco-o aqui: “Les Tribulations d’un Chinois en Chine” de Jules Verne. Pronto!

Ontem o dia correu muito bem. O almoço do Leituras de BD estava devidamente condimentado; espectacular companhia.

Quanto ao MAB – Festival Internacional de Multimédia, artes e BD, como ia com o pessimismo instalado, até gostei. Teria alguns aspectos negativos a apontar, mas o facto de ter efectuado umas boas compras, conhecido pessoal fantástico, e ter trazido uns valentes rabiscos, evita frases mais tristes. Além do mais tive o prazer de ver em primeira mão a exposição de Zakarella.

Contudo este post não servirá para falar do MAB – Festival Internacional de Multimédia, isso ficará para outro, mas das minhas aventuras malucas, que comprovam muita coisa ou nada.

Os apontamentos:

    1. Fui de comboio
    2. Como tipo precavido que sou, depois de ver o horário do comboio de regresso, marquei como alarme a hora de partida no meu Nokia x6 para não o perder.
    3. Às 17h45m o alarme disparou. No visor indicava 18h00. Com apenas 15m para chegar ao destino e como não sabia a forma mais rápida de chegar à estação de São Bento pedi indicações à diabólica Virgulina Labareda.
    4. Recordei-me que tinha deixado na mão do João Mascarenhas o Punk Redux, o novo álbum do Menino Triste. Fiquei mais que doido.
    5. Pesquei o marcador de livros da Dr. Kartoon, telefonei para a loja de Coimbra, pedi o número de telemóvel do João Miguel Lameiras e pedi-lhe para deixar o álbum com Nuno Amado – agora vou ter mesmo de pagar os portes!
    6. Perdi-me, temporariamente. Sabia que a rua de referência tinha uma data, mas só me lembrava do 25 de Abril. Como fui capaz de me esquecer de um livro!
    7. Quando me lembrei do 31 de Janeiro foi sempre abrir – claro que a descer ajuda.
    8. Chegado à estação de São Bento, pisco os olhos para o relógio de pulso que me indica 18h30m – merda, perdi o comboio.
    9. Ataco a tabela de horários Porto-Vigo para ver a alternativa e reparo que não existe qualquer comboio às 18h00, mas sim às 18h45m
    10. Amaldiçoo o Nokia x6 e especialmente o sujeito que gravou o alarme. Depois desta confusão ainda tenho 15m – nada mal!
    11. Na bilheteira: “Um bilhete para Barcelos”.
    12. “Não há hoje mais comboios para Barcelos devido à greve”.
  1. “Greve! Mas está no placard o comboio das 18h45m para Braga”.
  2. “Não tem ligações para os regionais.  A greve é dos regionais a partir das 16h00. Só tem comboio até Nine.”
  3. Ainda na bilheteira: “A sério?!! Que seja. Um bilhete para Nine.”
  4. Continuando na bilheteira: “Mas, mas… depois o senhor não tem comboio para Barcelos!”
  5. “Faço o resto do percurso a pé pela linha. O meu Nokia servirá de lanterna.” Fiquei um pouco melhor com a expressão do homem, apesar de ele ter a obrigação de não revelar qualquer surpresa perante um simples sujeito de chapéu aparentemente amalucado.

Ainda tive tempo de beber um capuccino extraído daquelas máquinas automáticas e comprar uma garrafa de 1,5l antes de entrar para o Comboio. Ufa!!!

teolinda gersão

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Esse ano demorou-se um só dia, e fugiu que nem um pássaro pela janela entreaberta.
(Muitas vezes, depois, ela se haveria de arrepender de ter deixado a janela mal fechada.)

Ando cansadíssimo a segurar o mundo, diz o autor.
Não tenho tempo nem de fazer um telefonema. Corro para um lado a segurar as cidades, corro para o outro a segurar os rios, corro para o outro a segurar as pontes. Se eu fechar os olhos um minuto o universo começa a oscilar e cai.
Porque é de mim que deriva o tempo e o espaço.

Sou lindíssimo, disse o autor fascinado. Lindíssimo, lindíssimo, lindíssimo. De tal modo que não posso despegar os olhos do espelho. E tudo o que existe, sou tentado a converter em ‘eu’. Porque só tenho olhos para mim.
Sentou-se na cadeira, cruzou as pernas e começou a devorar o mundo. Engolia, engolia, engordava sem medida e a inflação do eu era tão grande que a certa altura rebentava e caía numa chuva de estilhaços.
E então pacientemente, de gatas, ia procurando os pedaço, aqui e ali, e começava a cola-los outra vez com Araldite.

Epístola aos Pisões: Cortai os pés, pisões, cortai verdadeiramente os pés e aprendei que a poesia não pisa: é o modo mais directo para voar

Um dia descobri a porta que fazia sair de casa. Esse foi o dia mais belo: o mundo estava lá fora.

(….) quando se perde um comboio na vida, nunca mais se pode alcança-lo outra vez.

Guarda-Chuvas Cintilantes de Teolinda Gersão