eu, josephine linc. steelson, pobre negra no meio da tempestade

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Eu, Josephine Linc. Steelson, pobre negra no meio da tempestade, sei que a natureza vai falar. Vou ser minúscula, mas tenho pressa, pois há nobreza em experimentar a nossa própria insignificância, nobreza em saber que uma lufada de vento pode varrer as nossas vidas e não deixar nada atrás de nós, nem mesmo a vaga recordação de uma pobre existência.

Furacão de Laurent Gaudé

versus x versus

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It started raining. I opened my umbrella. Someone asked me, ‘Can you give me a ride under your umbrella?’ I replied, ‘sorry, but I do not have permission to drive umbrellas.’
‘But can I, then instead, take shelter under your umbrella since it is an umbrella with two seats?’
‘Can you tell me the time?’ I asked.
‘No because I don’t wear a watch.’
‘Then I can’t shelter you under my umbrella.’
‘And why not?’
‘Because I support the symbiosis and not parasitism.’

lol, camouflage 7.0 – bus 88

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This story will be published in Le Scat Noir #217.

I began to write a story about lol but the story forced me to be more than what I wanted.
Sources of inspiration:
– Le Scat Noir #215 by Black Scat Books
– Waiting for Beckett by Jason E. Rolfe
– Waiting for Godot by Samuel Beckett

com rodinhas

língua
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Durante o 1º ciclo e o 2º ciclo é permitido aos alunos usarem pastas escolares com rodinhas; está dentro da moda autorizada.

No decorrer do 3º ciclo e até terminarem o secundário o uso de pasta com rodinhas é podre e só um verdadeiro azeiteiro as usa. Vade retro Satana às rodinhas. As pastas são, agora, exibidas em costas curvadas sobre o peso de 20 quilos de material escolar – ufa.

Mas as rodinhas são pacientes! E sabem manter-se em estado latente, como alguns animais do deserto australiano que podem esperar durante anos pela chuva.

E eis que quando menos se espera começam novamente, pois claro, a pulular rodinhas que premiando a entrada dos alunos no ensino superior aparecem em malas de viagem.

teolinda gersão

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Esse ano demorou-se um só dia, e fugiu que nem um pássaro pela janela entreaberta.
(Muitas vezes, depois, ela se haveria de arrepender de ter deixado a janela mal fechada.)

Ando cansadíssimo a segurar o mundo, diz o autor.
Não tenho tempo nem de fazer um telefonema. Corro para um lado a segurar as cidades, corro para o outro a segurar os rios, corro para o outro a segurar as pontes. Se eu fechar os olhos um minuto o universo começa a oscilar e cai.
Porque é de mim que deriva o tempo e o espaço.

Sou lindíssimo, disse o autor fascinado. Lindíssimo, lindíssimo, lindíssimo. De tal modo que não posso despegar os olhos do espelho. E tudo o que existe, sou tentado a converter em ‘eu’. Porque só tenho olhos para mim.
Sentou-se na cadeira, cruzou as pernas e começou a devorar o mundo. Engolia, engolia, engordava sem medida e a inflação do eu era tão grande que a certa altura rebentava e caía numa chuva de estilhaços.
E então pacientemente, de gatas, ia procurando os pedaço, aqui e ali, e começava a cola-los outra vez com Araldite.

Epístola aos Pisões: Cortai os pés, pisões, cortai verdadeiramente os pés e aprendei que a poesia não pisa: é o modo mais directo para voar

Um dia descobri a porta que fazia sair de casa. Esse foi o dia mais belo: o mundo estava lá fora.

(….) quando se perde um comboio na vida, nunca mais se pode alcança-lo outra vez.

Guarda-Chuvas Cintilantes de Teolinda Gersão

o guarda-chuva, o quê?

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A minha esposa cheia de contentamento, com um rosto tão radiante, como só ela sabe fazer, ofereceu-me um guarda-chuva? tão pequeno em tamanho que vou certamente o perder dentro do porta-moedas.

Agora que o olho bem de perto até me sinto incomodado com o seu comprimento. Acho, até, que o meu falo nos seus momentos de maior felicidade e energia cósmica é maior do que esse adereço irritante.

Reconheço que é prático, mas pouco lisonjeador para um homem que gosta de coisas grandes a fugir para o pujante. Enfim… foi a mais-que-tudo que o ofereceu tenho de sofrer com a chuva e com o guarda-chuva; sofrimento duplo.