lembro-me de si

Standard

Era mais do que eu podia esperar e foi um puro prazer, um regresso ao passado sem um átomo de desapontamento – o passado recapturado, como um refúgio, tudo o que sempre quisera que fosse uma chegada a casa, mas uma chegada destas a casa (pelo menos no meu caso) nunca acontecera. Era um caminho de regresso maravilhoso, como se aquele homem dos seus cinquenta anos, que da outra vez era um adolescente, estivesses à espera que eu regressasse.

Paul Theroux, Comboio-Fantasma para o Oriente (pág. 290)

“aquelas coisas”

Standard

Só reparei no sujeito quando este me tocou no ombro. Extraí os “phones” das orelhas para ouvir a primeira brincadeira do dia de um conhecido-desconhecido; aquele tipo de pessoa que nunca é vista durante anos e que por milagre, acaso, tragédia se cruzam comigo, para depois regressarem a qualquer limbo:
“Então meu, enviaram-me o link do teu blog, nem sabia que tinhas um, tens conta no Hi5?, foi ontem, e nem sabia que andas naquelas coisas?”
“Coisas? Naquelas coisas? Faço tantas coisas boas. A quais delas te referes?”
“À seita dos amarelos, dos crexina! Foi demais ver a tua foto. Man, estavas mesmo feliz! Só podias, para estares no meio daquela cena!? Tens email? O que era aquela comida que tem na foto? É boa? Ainda te vou ver de cabeça rapada com um pedaço de cabelo pendurado… Demais. Vais fazer mais daquilo? E houve dança? E então não dizes nada?”
“É-me dificílimo dizer alguma coisa enquanto não páras de falar com esse entusiasmo to…”
“Sabes já vi várias vezes disso em Lisboa e até fui ao youtube ver se se fazia mais disso em Portugal?”
“E faz-se?”
“Ya, por tudo o lado é demais os crexinas com o hare crexina todos contentes! Até dançam? lol! Vi um no castelo de São Jorge. Gajos malucos. Ouve, mas és crexina?”
“Não sou Krishna longe disso. Quanto muito posso ser um devoto muito iniciado de Krishna. Mas fico verdadeiramente satisfeito que aquelas fotos te tenham alegrado imenso; o suficiente para te encontrares hoje aqui comigo, por onde passo 5 dias por semana, sem falta, desde sempre, a caminho da escola. Estás contente por descobrires que eu estava “naquelas coisas” e foste pesquisar na net mais sobre as “coisas”? Fico feliz por descobrires uma filosofia de vida que te estava a passar ao lado. Gostava mesmo de continuar a falar contigo, mas preciso de ir trabalhar.”
“Ya, na boa.”
“Segunda-feira aparece e conversamos mais um pouco sobre as “coisas” que eu fiz e que te fizeram tão contente. Porta-te bem!”

harinama em braga

harinama em braga

Não sei se ele vai aparecer na segunda-feira, mas não deixa de ser surpreendente que “aquelas coisas” façam com que certas pessoas saiam do covil e aqui covil é escrito no bom sentido – claro.

a mão e o cigarro

Standard

Na sexta-feira passada a caminho do meu local de trabalho a minha mulher reparou que a viatura que impudicamente seguia à nossa frente era conduzida pelo Sir Paxo…

buzinou-se para um salutar cumprimento social de 2 segundos

mas, o mais engraçado é que eu apenas reparei que a pessoa que conduzia essa tal viatura tinha um deselegante cotovelo pousado na janela e que tinha estendido o antebraço para expelir cinzas de um cigarro preso nos dedos da mão esquerda

e penso que talvez, um pouco só, dou demasiada atenção ao pormenores e não ao quadro global da paisagem e por isso, talvez, talvez um pouco apenas, raramente vejo rostos quando me passeio pela rua

e na situação presente eu nunca repararia no Master Paxo – não porque ele seja um pormenor, uma mancha na paisagem, convenhamos que em qualquer quadro sir p. seria tudo menos uma mancha, talvez um borrão e digo-o sem qualquer paternalismo ou sem qualquer insulto subliminar -, mas porque me fixei no movimento mecânico do cotovelo, do punho e das cinzas a despegarem-se do cigarro para levadas pelo movimento da viatura branca de Sir Paxo virem na minha direcção

imagino que terei de deixar de ligar aos pormenores.

forte vs gordo

Standard

A caminho de casa e ao passar junto a camiões carregados com carrosséis para as próximas Festas das Cruzes a minha mulher diz à nossa filha:
– Já viste Margarida os camiões com os carrosséis para depois tu brincares?
– Mas eu tenho medo. E sem demora diz em tom trocista: – Não tenho não. Pai, tu podes ir comigo, não podes?
– Claro que posso ir Margarida.
– Mas tu és gordo. Olho para ela com uma cara de estupefacção e ela returca:
– Poooisss tu és forteeee. Gordo é o Sérgio Go’dinho.

Claro que dei boas e valentes gargalhadas.

o cão, um aviso

Standard

Hoje a caminho do meu local de trabalho, atravessei o parque da cidade, e pelo segundo dia vi um homem, se assim o posso identificar, a passear um cão e um cãozinho. Chocou-me. Pensei que numa segunda vez a vontade de vomitar fosse facilmente ultrapassável. Engano meu. Aquela cena é mesmo difícil de engolir. Felizmente tinha o estômago parcialmente vazio. Virei logo a cara e tentei pensar em coisas bonitas. Num prato de búzios. Numa francesinha. Num bife. Numa belga. Consegui dessa forma ultrapassar a agonia.

Para onde caminhamos quando um homem alguém possivelmente e lamentavelmente do sexo masculino decide à frente de toda a gente passear um cãozinho. Mais valia passear um rato. Mas um cãozinho. Tenho um amigo que com bastante orgulho passeava uma cadela. Era uma cadela. Até podiam ser duas cadelas. Mas nunca seria mais meu amigo se eu soubesse que ele andava à trela com um cãozinho.

Está a haver uma perca de valores morais e sociais básicos. Já não chegava os pseudo-críticos dizerem que aquele filme com cowboys gays é um bom western. Aquilo pode ser tudo excepto um western. Uma pizza sem queijo nunca será uma pizza. Ponto final. Desde essa altura que só deixo o meu filho brincar ao zorro. E durante 6 meses vi e revi todos os western de Sergio Leone para manter a minha psique a um nível aceitável.

De uma próxima vez terei de o chamar à razão. Apesar de achar que o meu riso, nojo indisfarçável o tenha embaraçado o suficiente..

livre-arbítrio

Standard

Os baptizados são realizados em pessoas, em crianças, que não têm a possibilidade de dizer não ou sim. Não têm qualquer consciência das implicações do acto que lhes é imposto pela sua família.

A religião cristã defende que o homem é responsável pelas suas acções. Deus deu-lhe uma arma poderosa o livre-arbítrio. Ele não impõe a sua vontade nas nossas escolhas, no nosso caminho, na nossa estrada da vida. Como é que esta imposição baptismal é conciliada com o livre-arbítrio?

Este livre-arbítrio existe igualmente na estrada do amor.

Why is commitment such a big problem for a man? I think that for some reason when a man is driving down that freeway of love, the woman he’s with is like an exit, but he doesn’t want to get off there. He wants to keep driving. And the woman is like, “Look, gas, food, lodging, that’s our exit, that’s everything we need to be happy… Get off here, now.” But the man is focusing on sign underneath that says, “Next exit 27 miles,” and he thinks, “I can make it.” Sometimes he can, sometimes he can’t. Sometimes, the car ends up on the side of the road, hood up and smoke pouring out of the engine. He’s sitting on the curb all alone, “I guess I didn’t realize how many miles I was racking up.”

Jerry Seinfield

Mas, e sem descurar a importância do amor, quero é falar do primeiro livre-arbítrio, o concedido por Deus. Este livre-arbítrio é uma “coisa” muito boa, especialmente para Ele. Ele nunca faz asneiras. Somos sempre nós que as cometemos. Quer seja por omissão, quer seja por acção ele irá sempre dizer:
– “A estrada que seguias levou-te a uma encruzilhada. Havia o caminho da direita e o caminho da esquerda. A escolha foi tua, meu filho.”
– Sim, a escolha foi minha. E essa escolha que ditou todo o meu futuro ficava como todas as decisões “na encruzilhada do bom e do mau caminho”[1] e como sempre não basta “choose wisely”[2]. Faltou, falta, sempre, um pormenor, que como todos os pormenores é um pormenor de merda.
As guerras, os desastres, a fome, a miséria humana não são culpa de Deus. Dele nunca. São culpa nossa. Como filosofia é uma coisa espectacular. Como isenção de culpa é uma coisa ainda melhor. Sem esquecer que Ele até nos dá linhas orientadoras, um código de conduta, uma constituição moral, os 10 mandamentos.

Há filhos que se podem orgulhar de pais, mais ou menos, semelhantes a esta presença/ausência divina.

Há filhos que têm pais sentinela, não os vemos, não os cheiramos, mas eles estão lá para nos premiarem com uma bofetada por alguma acção “potencialmente” mal feita. Nunca sabemos a razão da marca gravada a quente na cara. O pai sentinela não informa. Faz-nos pensar. Faz-nos crescer. Magoa-nos.

Há, também, os pais faróis, firmes, hirtos, iluminam o nosso caminho – “i’m the light“, mas mudam de direcção com uma regularidade constante. São defensores do cinzento, do “nim” e estão lá para nos premiarem com uma iluminada bofetada por alguma acção que já pode ter sido boa, mas que já não o é. Nunca sabemos a verdadeira razão do ardor na cara. O pai farol não informa. Faz-nos pensar na volatilidade das nossas acções. Faz-nos crescer. Faz-nos políticos.

E, já agora, porque é que me estou a queixar? Sou ateu. Bem, sou mais agnóstico. Porque um agnóstico é um ateu politicamente correcto. E o meu pai é o meu Pai.


[1] Vinicius de Moraes, O terceiro filho
Em busca dos irmãos que tinham ido
Eu parti com pouco ouro e muita bênção
Sob o olhar dos pais aflitos.
Eu encontrei os meus irmãos
Que a ira do Senhor transformou em pedra
Mas ainda não encontrei o velho mendigo
Que ficava na encruzilhada do bom e do mau caminho
E que se parecia com Jesus de Nazaré…”

[2] Palavras ditas pelo Cavaleiro do Graal no filme Indiana Jones and the Last Crusade.

irrevogável

Standard

Agora sabia que era capaz de fazê-lo; mas isso não me deu prazer. O pobre sujeito não me fizera mal. A sorte estivera simplesmente contra ele e a cor do seu cabelo. Que, como via agora, tinha sido a sua distinção fatal. O seu caminho naquela noite, ao coincidir infaustamente com o meu na Threadneedle-street, tinha feito dele o objecto inconsciente da minha intenção irrevogável de matar alguém; mas se não tivesse sido ele, devia ser outro qualquer.

Michael Cox, O Sentido da Noite, Uma Confissão
título original: The Meaning of Night – A Confession
tradução: António Pescada
editor: Círculo de Leitores, Out, 2006, Braga
citação: pág. 22
isbn: 978-972-42-3827-2