stanislaw lem, solaris

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(…) De certo modo, todos os deuses das velhas religiões eram imperfeitos, tendo em conta que os seus atributos eram apenas os atributos humanos ampliados. O Deus do velho testamento, por exemplo, exigia uma submissão humilde e sacrifícios e tinha ciúmes dos outros deuses. Os deuses gregos tinham ataques de amuo e querelas de família e eram tão imperfeitos como os mortais…
– Não – interrompi – Não estou a pensar num deus cuja imperfeição é fruto de candura dos seus criadores humanos, mas um deus cuja imperfeição represente a sua característica essencial: um deus limitado na sua omnisciência e poder, falível, incapaz de prever as consequências dos seus actos e criando coisas que conduzem ao terror. Ele é um Deus… doente, cujas ambições excedem os seus poderes e que, a princípio, não realiza esse facto. Um deus que criou os relógios, mas não o tempo de que estes são a medida. Criou sistemas e mecanismos que serviam fins específicos, mas agora ultrapassou-os e traiu-os. E criou a eternidade, que deveria ser a medida do seu poder e que afinal é a medida da sua infinita derrota.

Stanislaw Lem, Solaris
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