teolinda gersão

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Esse ano demorou-se um só dia, e fugiu que nem um pássaro pela janela entreaberta.
(Muitas vezes, depois, ela se haveria de arrepender de ter deixado a janela mal fechada.)

Ando cansadíssimo a segurar o mundo, diz o autor.
Não tenho tempo nem de fazer um telefonema. Corro para um lado a segurar as cidades, corro para o outro a segurar os rios, corro para o outro a segurar as pontes. Se eu fechar os olhos um minuto o universo começa a oscilar e cai.
Porque é de mim que deriva o tempo e o espaço.

Sou lindíssimo, disse o autor fascinado. Lindíssimo, lindíssimo, lindíssimo. De tal modo que não posso despegar os olhos do espelho. E tudo o que existe, sou tentado a converter em ‘eu’. Porque só tenho olhos para mim.
Sentou-se na cadeira, cruzou as pernas e começou a devorar o mundo. Engolia, engolia, engordava sem medida e a inflação do eu era tão grande que a certa altura rebentava e caía numa chuva de estilhaços.
E então pacientemente, de gatas, ia procurando os pedaço, aqui e ali, e começava a cola-los outra vez com Araldite.

Epístola aos Pisões: Cortai os pés, pisões, cortai verdadeiramente os pés e aprendei que a poesia não pisa: é o modo mais directo para voar

Um dia descobri a porta que fazia sair de casa. Esse foi o dia mais belo: o mundo estava lá fora.

(….) quando se perde um comboio na vida, nunca mais se pode alcança-lo outra vez.

Guarda-Chuvas Cintilantes de Teolinda Gersão
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