o evangelho do enforcado

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O pouco que aprendi, mas sou um tipo novo, com apenas uns simpáticos 4? anos, sobre a crítica ou os críticos em Portugal é que existem quase em exclusivo dois tipos quando tratam de autores portugueses:
# 1 – há aqueles que dizem bem por dizer (talvez pensando que assim lhe tecerão críticas igualmente boas)
# 2 – há aqueles que dizem mal porque sim (possivelmente porque a editora não lhes ofereceu um exemplar ou na melhor das hipóteses por pura inveja; não se iludam que esta existe e é visceral)

Existe um terceiro tipo de crítico que escreve com sinceridade, são poucos, mas felizmente são bons. Escrevo isto porque já li tantos disparates críticos que só são concebíveis com este “tipo” de críticos.

Evidente que quando falo em críticos são aqueles que têm um estatuto?, digamos, de crítico institucionalizado.

No fim da pirâmide (fico na dúvida se na base ou no topo) temos o leitor anónimo, como eu, que opina como pode ou sabe sobre o que lê. E é neste sentido que irei tecer algumas palavras sobre “O Evangelho do Enforcado” de David Soares.

David Soares não precisou de muito para que eu ficasse convencido que estava perante uma obra grande. Logo no primeiro capítulo consegue sem dificuldade narrar um nascimento fantasticamente perturbador que é o perfeito comburente para continuar a minha leitura – depois “daquilo” o que mais David Soares me vai oferecer?

Oferece-me não apenas uma Lisboa deliciosamente nauseabunda, mas igualmente um Portugal sem alma. A cobiça pérfida pelo poder da nobreza é narrada magistralmente e ficaria convencido se não estivesse a ler uma romance que as conversas ocorreram mesmo daquela forma. E quando intervém a personagem Henrique quase que sinto o seu bafo, a sua transpiração a pulsar nas páginas. É a personagem mais loucamente saudável – se tal é possível dizer-se – e que se torna nesta sua alienação a mais consistente com o mundo que a rodeia; a frase “sobrevivência do mais apto” poderia ter sido criada para Henrique.

Naturalmente que Nuno Gonçalves, o pintor maldito dos misteriosos Painéis de São Vicente, é o nec plus ultra das personagens que vivem na obra “O Evangelho do Enforcado”. É impossível não sentir empatia com este assassino que consegue ser genial na pintura e esplendoroso nas mortes que executa.

“O Evangelho do Enforcado” foi um dos melhores livros que li este ano. Poderá não ser uma leitura fácil para muita boa gente porque David Soares não tem qualquer tipo de inibição a narrar o que quer que seja: morte, violação, sodomia, necrofilia.
Há quem se preocupe obsessivamente em colar ao “O Evangelho do Enforcado” um estilo. Eu resolvo? o problema afirmando que é uma amálgama de estilos que só David Soares é capaz de criar; o que se passará naquela cabeça?

Não posso deixar, igualmente, de salientar o trabalho de paginação e as fontes utilizadas no livro nas conversas de Geronte com Nuno Gonçalves.

Recomendo vivamente a leitura do livro “O Evangelho do Enforcado”.

E nada como dar um ar de erudito e colocar a propósito do romance “O Evangelho do Enforcado” esta frase

He cried in a whisper at some image, at some vision—he cried out twice, a cry that was no more than a breath—”The horror! The horror!”

Joseph Conrad, Heart of Darkness
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