a diaba

carnaval, diabos
Standard

Ontem a minha filha irrompeu pelo escritório enquanto atendia um cliente e amigo. Atirou-me um beijo e seguiu para casa com a mãe.
O Hugo lá me perguntou se ela ainda tinha as pilhas carregadas. Embasbaquei porque não soube o que lhe responder. Acabei por dizer que era uma autêntica diaba. Uma linda diaba, convenhamos. Uma marota. Um amor. Um desastre ambulante. A causa da família não ir comer fora como habitualmente. Nunca sabemos como vai correr. A razão dos meus cabelos brancos. Do meu aumento de peso – okay esta é demasiado forçada. Umas vezes adormece às 21.00, outras às 01.00. É uma incógnita perfeita e absoluta. Terminei dizendo que não há palavras para descrever o amor que ela é. O “terror” que ela é.

Pela noitinha ao passear pelo corredor reparei no Doutor Fausto de Thomas Mann e recordei-me da conversa e da impossibilidade em descrever por palavras o comportamento da minha filha.
Aventurei-me de seguida a procurar o “amoroso” diálogo de Adrian Leverküh (Fausto) com ELE [diabo].

(…) Informai-me! Como é que se vive na casa do Cão-Tinhoso? Que destino terá na espelunca aquele que se congraçou convosco?
ELE (dando uma gargalhada aguda, cascateante) (…) no fundo, não é fácil falar acerca disso, quer dizer, na verdade, não se pode falar disso de maneira nenhuma, porque o essencial não se ajusta inteiramente às palavras. A gente pode empregar e fabricar muitas palavras, mas todas elas são apenas substitutos; fazem as vezes de nomes que não existem, não lhes cabe pretender designar o que é totalmente impossível de definir e qualificar por meio de palavras. A volúpia secreta, a segurança do Inferno, consiste precisamente no facto de eler ser indefenível e conservar-se impenetrável às tentativas da língua; consiste no facto de ele se limitar a existir, sem que seja possível denunciá-lo aos jornais (…) Denominações tais como «subterrâneo», «cave», «muros espessos», «ausência de ruídos», «olvido», «desesperança» não passam de fracos simbolos, e, meu prezado amigo, convém, portanto que se contente com symbolis quem quiser falar do Inferno, uma vez que lá se acaba tudo – não só a palavra indicadora, mas tudo, tudo, simplesmente! (…) é penoso falar destas coisas que se passam muito além e fora da língua, a qual não tem nada a ver com elas e não as consegue interpretar; motivo porque nunca sabe claramente que forma de tempo dever usar a seu respeito e então escolhe o futuro, como solução de emergência, dizendo: «Ali haverá gemido e ranger dos dentes.» Bem, estes são alguns termos onomatopaicos, seleccionados em domínios bastante remotos do idioma, mas, mesmo assim, apenas símbolos fracos, sem relação autêntica com aquilo que «ali haverá» (…)

Doutor Fausto, ed. Círculo Leitores, 1991, págs. 285 e 286
Anúncios

One thought on “a diaba

deixar uma resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s