alarme

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Ao reparar na luz intermitente do alarme na Igreja de Santo António em Barcelos ocorreu-me um pensamento ou vários farrapos. Escolham.

Pensei que o Nosso Senhor é o maior proprietário de bens imóveis. Mas antes de avançar mais vejo-me obrigado a informar que não irei utilizar mais o pronome possessivo Nosso. E não é porque não posso, mas sim porque não quero. O Nosso de Nosso Senhor implica que o Senhor seja, também, considerado meu e como não o entendo como meu irei doravante recorrer ao possessivo Vosso. Será o Vosso Senhor.

Sendo o Vosso Senhor extremamente rico em bens materiais, mas dispondo, igualmente, de uma natureza omnipresente e omnisciente, segundo vossas palavras, porque precisa de um alarme? O poder individual do Vosso Senhor não seria suficiente para afastar quaisquer malfeitor? Os vossos e os outros? Ou o alarme e outras protecções dissuasoras servem, apenas, para os outros?

Se tivermos em atenção alguns testamentos apócrifos, vulgo actas de acontecimentos passados, os vossos corações serão igualmente uma morada do Vosso Senhor. Ora não conheço quaisquer registos, e nem estou para “googlar” sobre isso, a solicitar autorizações de ocupação dos vossos corações. Pode ser que o baptismo tenha imbuído uma cláusula escrita em letras muito reduzidas ou tenha palavras cerimoniosas ditas em tom muito discreto que cedam autorização de ocupação ao Vosso Senhor. A ser assim é, quanto a mim, muito grave, que sejam usados artifícios que actuam, claramente, à margem da legislação que regula os contratos com condições gerais. E não é menos desleixado que os pais e padrinhos subscrevam um documento no nome de um ser que não sabe o que é o livre-arbítrio. Claro, que repudiarei o que disse desde que que haja uma estipulação de resolução de posse do coração e o pagamento de uma renda com efeitos retroactivos.

Com os avanços médicos esta renda cardiológica tem criado outras complicações morais. Os transplantes de coração serão uma forma de sub-arrendamento? Ou trespasse? E se ocorrer um transplante de um vosso para um nosso? Ou vice-versa? Acho que estas questões devem ser respondidas pelos gestores de negócios do Vosso Senhor de forma adequada e atempada.

Eu, ainda, estou à espera de ser ressarcido da ocupação do Vosso Senhor que durante breves anos foi, também, Nosso Senhor, pois não dei autorização consciente de ocupação, mas não tem sido fácil. Sou uma das muitas vitima das negociações unilaterais.

Algumas vitimas em último recurso existencial usam o lockout cardiológico, que não aconselho. Outras utilizam Outros Senhores.
Eu, gostava, apenas, ser pelo menos o Meu Senhor. A ver vamos.

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